Poesia que brilha
O Dia do Saci é comemorado neste 31 de outubro. Há outra festa com abóboras antropomorfizadas que deveriam ser escanteadas para valorizar a cultura mais próxima de nossas raízes. Certo que nenhum mito folclórico ou religioso é original, todos são cópias, adaptações ou versões de histórias e estórias anteriores, milenares. Mas algumas viram sagradas, outras, pagãs. Todas são imaginativas e irreais, com a devida vênia aos que as cultuam. São culturais, portanto. Por trás de uma boa lenda, há muita poesia e é ela que temos de enaltecer para continuar a viver. Em reunião anterior dos Trovadores, fomos presenteados com Água que escorre das nascentes, de Martha Cimiterra e Márcio Martelli. São águas que fluem, fluidez estampada desde a concepção da capa passando pelos poemas do dueto. Um belo e líquido presente da Martha e "que as águas fluam para sempre pra mover nossos encontros", assim ela escreveu na dedicatória. Grato, grato.
Se dela falamos, é porque a data é também o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao aniversário de Carlos Drummond de Andrade. Coincidência? Claro que não, pois as coisas são casadas, feito a data e o caso, a vitória e a festa, a fuga e o crime. Na Ciranda Literária na Biblioteca, por todos conhecida como Sarau do Batata, no último sábado de outubro, o mesmo 31 de outubro, um pouco de Fernando Pessoa foi levado, o que me fez analisar e entender que em Autopsicografia, das três estrofes do poema, tidas como trovas perfeitas, apenas a primeira satisfaz as rígidas regras da UBT (União Brasileiro de Trovadores). Na segunda há rima com palavras de pronúncias diferentes no português aqui falado (escreve/teve, um fechado e outro aberto), e, na terceira a rima é quebrada (roda/corda). Na contagem de sons, são todos versos com sete sílabas e fica por aí. Pessoa finge que é trovador, sabendo da dor que é plasmar a trova boa.
Fingimos que não necessitamos da poesia quando, na verdade, tudo o mais que a musa inspiradora levanta é para cortarmos as dores da existência. Insisto no pleonasmo de viver e sobreviver, ainda que tenhamos boletos e mais-valia para pagar com o suor de nossos esforços. Os pensamentos cartesianos também brilham junto aos poemas em etéreas materialidades, sabendo que o sentir caminha com o existir, indissociáveis matéria e energia que são. Porém, o espaço de alguns jornais impressos tornou-se limitado devido à grande quantidade de desejosos na publicação de seus próprios pensamentos, lamentos, verdades e mentiras. O centenário Correio Popular, de Campinas, é um desses veículos já saturados, difíceis agora de adentrar. Outros espaços se abrem a tempo e inaugurei a ocupação do Pátria Latina (https://patrialatina.com.br/a-democracia-digital-vai-as-ruas/). Assunto necessário, pouco poético, mas é porque às vezes me pego rindo sem ter por quê. Na verdade, há o porquê. Sobrevivemos depois de esperançar em todos os espaços. A poesia da vida voltou a brilhar.
Beleza de comentário, caríssimo colega e amigo Adilson. . De fato há que se fazer valer a importância da poesia. Poesia sempre.; todas as poesias....de Castro Alves a Drummond Entendo que a modernidade, assim como e o atual momento de novas complexidade, reafirma o que há de mais velho em nós, que, por ser velho, está lá há mais tempo, e reside nessa tua frase tão bonita - e poética! - que copio aqui:( segue) :... Fingimos que não necessitamos da poesia quando, na verdade, tudo o mais que a musa inspiradora levanta é para cortarmos as dores da existência. Insisto no pleonasmo de viver e sobreviver, ainda que tenhamos boletos e mais-valia para pagar com o suor de nossos esforços.
ResponderExcluirAdilson, muito grata por você citar o Márcio e a mim no primeiro parágrafo de seu blog! Que honra ter nosso livro lido por um escritor de peso! A leitura desta semana fluiu como as águas...Parabéns pela forma como articula seus três parágrafos! Só um mestre!
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