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Mostrando postagens de junho, 2026

Ponto no conto

Quem conta um conto, perde o ponto. As proezas de um operário sonhador no coletivo opressor que se atrapalha e não consegue descer onde devia foram enredo de um escrito antigo, já quase esquecido no ambiente eletrônico do computador. Assuntos não faltam para contar boas histórias - ou estórias, deixo para os etimologistas discutirem. Em tempos nos quais juntar palavras parece tarefa fácil que até uma inteligência dita artificial consegue fazer, o desestímulo à escrita só não é maior que o da leitura. Já me questionei quanto os escritores de hoje estão lendo para compor suas obras ou apenas solicitando ajuda alheia para entregar páginas e páginas. No âmbito jornalístico, já houve quem reconhecesse que o texto por ele assinado era de autoria da tal IA. O leitor pagou por algo que é quase gratuito por aí. Digo quase porque Milton Friedman popularizou o conceito de não haver almoço grátis, presente na obra de ficção científica de Robert Heinlein, e aplicado a quase tudo nesta vida material...

Transformação maioral

Os profissionais que lidam com a mais bela das ciências comemoram seu dia neste 18 de junho, o Dia do Químico. É data em que também se lembra o aniversário de morte de José Saramago, 16 anos atrás. O número passa a ter coincidências interessantes, pois passamos pelo 16 de junho, que foi o Bloomsday, em lembrança ao Ulisses de James Joyce. Quem o leu? Tento aos poucos dar sequência ao que já prometi em um novo reinício de enfrentamento dessa obra magnânima. Antes de reclamar de um autor, é bom começar com algo mais leve, ou melhor, menos denso para conhecer as entrelinhas do pensamento escrevente. Se assim é com Euclydes da Cunha, do qual Contrastes e Confrontos é uma obra de ensaios mais palatável do que Os Sertões , da mesma forma podemos ler Retrato do Artista Quando Jovem , de Joyce (publicado em 1916 - vejam só!), para dimensionar o pensamento diferenciado desse ícone irlandês. Cutuquei os membros das Academias para uma leitura virtual de trechos de Ulisses pelo WhatsApp, mas os...

Frio enamorado

Frio são duas sílabas na trova: fri/o. A pronúncia corrente como um som apenas não é aceita na nobre arte poética de trovar. Ao contrário dos sonetos, em que há liberdade para moldar sílabas conforme a construção das catorze linhas e dezena de sons, a mensagem em quatro versos heptassilábicos é restrita. Detratores dirão que a trova é chata... Qual nada, detratores tratoristas! Ao digitar no celular, trova vira diretamente troca, pois, se há alguma inteligência ali, poética ela não é. Na troca de sentimentos surgem possibilidades infinitas e nada mais romântico do que emoldurar dizeres em versos que versam aquilo que, por vezes, a inibição não deixa aflorar. Já disse coisas em lápis e papel que não sairiam pelas cordas vocais. A expressão humana pela palavra parece que nos diferencia dos animais, mas, ao que tudo indica, não serve para nos distinguir da nova espécie digital que surge. Se até estudiosos renomados da língua estão se maravilhando com a IDA - inteligência dita artificial -...

A cor da dor da flor

Para ser telúrica, Baby Consuelo, antes de ser do Brasil, cantava o significado das cores e o pensamento das flores. Cor e flor são rimas fáceis em qualquer poesia, mas, de difícil, a vida já se completa. Então deixemos a rima correr solta, sem prisão explícita - que é para pobre -, ou disfarçada, que pega pelo tornozelo - que é para rico. Contemplemos a mescla da cor com a flor ao menos para distensionar. Outras canções clamaram por levar a flor para vencer o canhão, compreensível também hoje, quando há agitação nacional para ver bolas batendo em pés e pés batendo em canelas e canelas rolando pela grama, pois essa movimentação traz consigo a peculiaridade de confundir o uso das cores com a traição à Pátria. Um paradoxo se formou, portanto. Quando morei na Alemanha, os nativos se admiravam com o uso das cores de nossa bandeira. Eles ainda se ressentiam das guerras mundiais e do que o nazismo havia causado a todos. Diziam ser impossível usar as cores sem que parecesse exacerbação nacion...