Ponto no conto

Quem conta um conto, perde o ponto. As proezas de um operário sonhador no coletivo opressor que se atrapalha e não consegue descer onde devia foram enredo de um escrito antigo, já quase esquecido no ambiente eletrônico do computador. Assuntos não faltam para contar boas histórias - ou estórias, deixo para os etimologistas discutirem. Em tempos nos quais juntar palavras parece tarefa fácil que até uma inteligência dita artificial consegue fazer, o desestímulo à escrita só não é maior que o da leitura. Já me questionei quanto os escritores de hoje estão lendo para compor suas obras ou apenas solicitando ajuda alheia para entregar páginas e páginas. No âmbito jornalístico, já houve quem reconhecesse que o texto por ele assinado era de autoria da tal IA. O leitor pagou por algo que é quase gratuito por aí. Digo quase porque Milton Friedman popularizou o conceito de não haver almoço grátis, presente na obra de ficção científica de Robert Heinlein, e aplicado a quase tudo nesta vida material. Dois autores e duas figurinhas carimbadas, não de álbuns futebolísticos, mas da conceituação moderna de economia, que, por sua vez, também não deixa de ser ficção.
 
Diz o ditado: cante sua vila para o universo. Não canto, mas conto. Enaltecer o circundante para se chegar ao infinito, eis a suposta fórmula de sucesso. Mas o faço, ou tento fazê-lo, de forma autoral. E quais são os limites? Qual é o limite entre usar uma calculadora para fazer a contabilidade pessoal e pedir para a inteligência dita artificial preparar todo o relatório de despesas de uma empresa? Ao que tudo indica, esse limite ficará apenas na esfera da moral individual. Eu digo que não usei a ferramenta para escrever o texto. O interlocutor que assim acredite ou tente investigar junto à própria ferramenta se foi ela - ou um primo próximo - que o fez. Insano. Parece um daqueles filmes de investigação criminal em que há um matador em série e, ao longo da trama, um outro criminoso é convocado para avaliar se os assassinatos em curso são fruto de um imitador ou se é o próprio autor original, tudo examinado pela forma e detalhes como o crime foi executado. A IA pedirá indulgência ou clamará por uma colaboração premiada nesse caso?

A escrita curta ficcional resultará em contos, ganhando ou não pontos com isso. Há uma interface nebulosa com a crônica, uma sendo mais próxima à realidade e efêmera, o outro, mais voltado à criação completa. Definições artísticas sempre esbarram na percepção de quem contempla a obra. Crônicas perenes nos chegam de décadas e séculos passados, parecendo dizerem da sociedade corrente. Se é para dar cartadas de naipe mais alto, coloco no rol Machado de Assis, contista, cronista, poeta, além de romancista. Tirando um ou outro verbete, o que ele disse poderia estampar jornais atuais sem percebermos que foram escritos mais de um século atrás. Machado foi o aniversariante do domingo passado, 21 de junho, novamente coincidindo com o início oficial do inverno nesta parte do hemisfério. Do outro lado estarão comemorando os primórdios de um verão que poderá ser caloroso para além do que aguentam frios corações europeus, asiáticos e norte-americanos (sim, incluindo os canadenses que também estão na América do Norte). Somos um país tropical, mas somo-me ao contingente dos que preferem o frio ao calor. Ao menos para pensar é melhor. E a praia? Praia sempre é bom!

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