Transformação maioral

Os profissionais que lidam com a mais bela das ciências comemoram seu dia neste 18 de junho, o Dia do Químico. É data em que também se lembra o aniversário de morte de José Saramago, 16 anos atrás. O número passa a ter coincidências interessantes, pois passamos pelo 16 de junho, que foi o Bloomsday, em lembrança ao Ulisses de James Joyce. Quem o leu? Tento aos poucos dar sequência ao que já prometi em um novo reinício de enfrentamento dessa obra magnânima. Antes de reclamar de um autor, é bom começar com algo mais leve, ou melhor, menos denso para conhecer as entrelinhas do pensamento escrevente. Se assim é com Euclydes da Cunha, do qual Contrastes e Confrontos é uma obra de ensaios mais palatável do que Os Sertões, da mesma forma podemos ler Retrato do Artista Quando Jovem, de Joyce (publicado em 1916 - vejam só!), para dimensionar o pensamento diferenciado desse ícone irlandês. Cutuquei os membros das Academias para uma leitura virtual de trechos de Ulisses pelo WhatsApp, mas os meus queridos e minhas queridas colegas de sodalício declinaram do convite, ainda que comentaram aspectos outros da obra e da comemoração do Blomsday alhures, Dublin incluída.

Continuo pensando sobre a influência do número 16 nessa estória, que se repete em várias passagens. Data da iniciação sexual do protagonista? Idade em que decisões mais maduras devam ser tomadas, pensando uma sociedade de um século atrás? Apenas a coincidência de ser um número par, quarta potência de 2, e que pode ser usada para aproximar os logaritmos de 3 e 5, cujo produto dá 15, apenas 6,25% menor que 16? Ah, sim, 6.25 em notação inglesa significa 25 de junho, e 25 - e outras combinações com tais algarismos - também aparece na obra em citações interessantes, uma delas referente à idade em que se possa receber os rendimentos financeiros de uma herança. Insisto para que a leitura deva ser feita, mesmo que aos trechos e pedaços catados às cegas. A matemática não precisa ser o fio condutor para essa viagem ou tropeço. Há inúmeros instantes inusitados em Ulisses que a aleatoriedade na escolha da passagem a ser lida torna-se apenas mais uma semelhança às vicissitudes da vida.

No Brasil, com 16 anos um jovem pode votar e, ainda, não pode ser julgado como adulto, caso cometa crimes. Há os que defendem mudar essa faixa etária. São grupos que ignoram os estudos que mostram que o encarceramento dos mais novos junto a adultos serve para transformar os jovens em ferramentas fáceis e descartáveis para o crime organizado. Querem vender a falsa ideia de que, aumentando o rigor na punição, o crime será coibido. Bem, em se tratando dos mesmos grupos que são contrários à ciência e à cultura, não é novidade. A idade para o início da atividade sexual, outro contraponto, continua a ser decisão individual, ainda que as diferentes culturas em distintas épocas sejam rígidas para determinar quando e como o fato deva ser consumado. De um lado, havia a necessidade da procriação em função da idade fértil, muito mais cobrada da mulher do que do homem. De outro, a expectativa de vida do ser humano no início do que hoje entendemos como civilização europeia era por volta dos 30 anos. Quando vivi na Alemanha, mesmo dentre estudantes com perfil, digamos, da elite intelectual daquele país, não ter se casado antes dos 30 significava que os noivos, no dia do enlace, deveriam queimar, em público, suas peças íntimas do vestuário, quer fosse uma cueca ou uma calcinha. Diversão para os alheios a tal cultura que estavam ali apenas para conhecer um pouco mais e aproveitar a comilança.

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