Sagradas posições

Ansiedade não deveria ser sintoma político a cada dois ou quatro anos. Já perdemos muito da saúde e da essência em períodos anteriores por escolhas ruins e podemos voltar a perder. Por isso que o muro não pode ser a morada do covarde, nem a farsa ser a falsa escolha. Ainda que a sociedade moderna já não nos divida mais entre nômades e sedentários, ao bel prazer da caça e da colheita, uma posição precisa ser tomada e ela deve ser condizente com o lugar de existência junto à cultura, à educação, à ciência, ao meio ambiente, à vida, enfim. Não enaltecendo a morte, a violência, a misoginia e outras práticas execráveis que estão do outro lado. Sim, há um outro lado em que estão coisas ruins - e o coisa-ruim, nepocrata de primeira linha. Ele pode se disfarçar, mudando de fisionomia, de domicílio eleitoral e de número de tempos em tempos; porém, não nos engana. Ao menos, não engana quem tem a consciência da história do país. Explicitamente (que não será feito aqui, por enquanto) o mal precisa ser nominado para ser devidamente combatido.

Meu ateísmo convicto e praticante não permite a leviandade de falar sobre o uso de imagens sacras em campanhas eleitorais. O respeito deveria ser onipresente, mas não é. E são muitos os tristes exemplos. Um fato é que segmento significativo de cristãos não tolera as religiões de matrizes africanas, realizando ataques a terreiros e espaços sagrados daqueles seguidores, promovendo a proibição de seus filhos jovens de participarem de atividades culturais escolares que ecoem as vozes de África nos tambores. Dentre os cristãos, o fratricídio é também evidente, uns com mais santos e santidades, outros com menos, pois estão voltados à teologia da prosperidade. Historicamente, a Padroeira do Brasil é Nossa Senhora Aparecida, feriado muito bem vindo para todos nós, título criado apenas nos anos 1930, na República, mas de devoção consagrada desde o Império e mantida até hoje. E sim, houve um projeto de lei que tentou mudar tal conceito, uma década atrás, apresentado por deputado que hoje é do grupo do candidato do PL, cujo nome não sujará estes parágrafos. E, mais um sim, houve um movimento na última semana que aventou a hipótese de desengavetar o estapafúrdio projeto. Como tudo o que fazem é na surdina, não dá para saber o que veio primeiro, a mentira ou a atuação contra o país.

Carapuças são, assim, lançadas ao afirmar que ninguém que considero intelectualmente ao menos razoável vota na extrema direita e seus cupinchas. Vivi e vivo em cidades complicadas e paradoxais em termos políticos, próximo a uma minoria que se supõe intelectual, pois diz se alimentar da vanguarda cultural, mas que arrota o fascismo do obscurantismo. Há exceções e há também outros que são ativistas ambientais, profissionais da educação, agentes que atuam fortemente nas comunidades que parecem ter esquecido seus lugares de vida, sua origem social. Não enxergam o que lhes é apresentado na ponta dos narizes, com todo respeito aos que têm verdadeiramente deficiências visuais, tornando o preconceito contra uma única pessoa maior do que os fundamentos que deveriam ser a razão da escolha. As bases desta argumentação estão em publicações e documentos vários. Releia-os. Sei que para muitos - não deveria ser para os doutos senhores do saber aqui elencados - tais materiais são livros com muitas letras, explicitamente condenados que foram naquele período de terror acima mencionado. Mas, mesmo sem querer edulcorar a situação, pois algumas posições contrárias são até respeitáveis, que não terminemos com a pressão arterial desregulada pelos sobressaltos bissextos e fiquemos com esta singela e necessária mensagem cultural: Leia Um Livro Agora!

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