Poesia e memória
O que é poesia senão subversão? O que é poesia senão toda sorte e azar de sentimentos? O que é poesia senão aquilo que o poeta, ingênua ou sublimemente, quis dizer? Poesia, como nos revelou Raul Seixas junto com o imortal Paulo Coelho (sim, podemos dele não mais gostar, mas é imortal canônico), é o tudo e o nada. A poesia preenche as frestas inconclusas da existência. Nem precisa de Ferreira Gullar para saber que, mesmo com ela, a vida não se basta. Toda forma de poesia é bem-vinda, a clássica, a moderna, a concreta, a fluida e até a ectoplasmática. A poesia sem forma e a disforme, a poesia ruidosa e a silenciosa, a poesia rimada e a desritmada, a poesia movida a cânones e a levada à cana. Rio ao pensar no chamado verso livre, como se algum verso pudesse ser preso. E o poeta? Apenas um transgressor, um mensageiro, um ser irrequieto que ama em desamor, que sofre em alegrias, que cria por mais descriador que o mundo tenha se tornado, mesmo que o tornado seja um turbilhão de transformações e possibilidades. O poeta é essência. Paciência!
Ao poeta foi avisado que não se explica a poesia. Nem a minha, nem a sua. Não se tenta convencer o ouvinte lançando-lhe mais palavras do que aquelas já impressas ou estampadas ou ditas. Há uma aura de atemporalidade infinita em cada verso lido e absorvido. Isso já é suficiente. O som além da rima quebrará cantos e encantos e se torna proibido, mesmo dentro do impacto que a obra artística causa. O poeta deixa de ser autor para ser paciente da arte doentia que produziu. Sim, do alívio de doença e consciência, ele gera desconforto em outrem. Se nada mudar, mudo é o poema. Arte que não impacta é mero entretenimento. Entreter entre tantos ofícios é o que mais se aproxima do suicídio, pois diz respeito a matar o tempo. Se o tempo nos consome ao mesmo tempo que é nós mesmos, acabar com ele é findar a vida que todos carregamos. Deixemos o entretenimento para a passividade. Poesia é ativa, é viva; ela convida a ver o além e para além. O poeta já disse o que tinha para dizer. Agora é no silêncio de suas palavras que encontraremos algum sentido.
A arte não é, a arte somos. Se não for coletiva, será apenas objeto do ego. E aquele que apenas se explica nos versos tem a natureza ególatra que não cabe em lugar algum e, por isso, mais que poeira é: pó-ego poeta. Uns parênteses para dizer do curta-metragem Memória veneno, de Marta Fontenele (https://www.instagram.com/filme.memoriaveneno/), exibido no Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, na última "quinta-freire", em que a memória era o tema principal, mas que carrega como aliada inseparável a desmemória, caminhando a seu lado (antecipo um alemãozinho que vem a seguir). Dos tempos corridos e corroídos de hoje parece que vivemos no trinômio pressa preço pressão. Dizem que a pressão provoca maior criatividade artística, mas, mesmo sendo um experimentalista, não gostaria de colocar a tese à prova mais uma vez. Podemos buscar outros estímulos mais prazerosos para a arte e para a memória. O prazer não tem prazo, diria outro poeta, não me lembro qual, pois o alemão da quebra das sinapses sempre volta e vence. Não, aquele outro serzinho ridículo, de arte idem, era austríaco, ainda que tenha causado estrago mundial e continua com adeptos überall, em todo lugar.
Amei, Adilson!! Excelente!! E essa frase “Entreter entre tantos ofícios é o que mais se aproxima do suicídio, pois diz respeito a matar o tempo” faz a gente refletir. Adorei tudo!Abraços, Kátia
ResponderExcluirComo não gostar de um texto que fala daquilo que amamos fazer? Não só fala, mas vai funnndo! rsrs
ResponderExcluirTexto explicativo, poético mas que abre "margens" para reflexão about. Parabéns Adilson.
Maria Felim