Uma fábula
Insônia às três da manhã. A droga forte prometia livrar-nos de todos os males, amém, até o momento em que perdeu o efeito. Aquela euforia foi prontamente substituída pela depressão. O médico esclarecido, os amigos honestos, os companheiros de coração avisaram que não era inofensivo como um placebo, mas, tal qual a obviedade dos argumentos, não foram ouvidos. A um animal não é necessário avisar para não se lançar ao precipício. O chamado ser inconsciente ou desinteligente usa da lógica dos princípios da sobrevivência para não colocar a própria existência em risco. Ou, quando necessário, calcula o risco que precisa correr para sobreviver. Quando precisa correr o risco, bem o sabemos. Não foi o caso com aquele comprimidinho azul poderoso, na forma de cápsula. Uns relacionaram com a cápsula do tempo que só viaja ao passado, mas isso é memória difusa, não mais resgatável. Antes da dependência, o sono vinha, aos poucos, precisava apenas relaxar e entender que a vida havia ficado complicada no geral, mas que no particular muita coisa funcionava bem. Longe da perfeição, isso é fato, mas não havia destruição cerebral. Com o remedinho, sim. E como foi violenta a transformação.
No início, tudo foi vendido como limpo, claro, lógico, eficiente e funcional. Nem o melhor anestésico teria conseguido efeito letárgico daquela amplitude. A dependência logo se manifestou, mas as sinapses neurológicas já não distinguiam realidade de imaginação, e demorou para que alguma atitude fosse tomada. A dependência era caminho sem volta, isso ninguém avisou. Ou não foi dada atenção ao aviso? Ninguém mais se lembra, pois todos os registros impressos, midiáticos e cibernéticos foram apagados. As mensagens oficiais, agora, são baseadas no trinômio de que só o remédio liberta, pensar é doer, e a realidade é a da tela. O argumento principal naquele momento é que a verdade não precisa de testemunhos, nem de contradições. Não sabemos se foram feitos avisos (isso é uma repetição, aparentemente). Parece que sim. Mas o alerta geral acende - sim, há sirenes por todo lado - pois não se pode ficar questionando, isso é insensato e compromete o tratamento médico, para o qual todos pagam religiosamente. Certo, calemo-nos.
Se alguém ainda é capaz de confabular, com ou sem fábulas, as soluções não aparecem mais. Outra das certezas da vida, além da morte e dos impostos. Queriam usar um pouco mais do remédio agora - assim a pílula passou a ser chamada porque foi descoberto que tudo era uma questão de dose. É o que está nos anais oficiais. Em grandes quantidades, sabemos, até água mata. Por afogamento, sem precisar estar com os pés amarrados ou presos em alguma haste de madeira ou de metal. A droga, de outra forma agora, talvez revelasse melhor seus efeitos, se fosse lida a bula (ou seria fá-bula?). Sim, elas estavam ali o tempo tempo - a tal da leitura e a bula - e foram desprezada porque a comunicação direta dos outros que indicaram a substância era muito confiável. Vinha da família, daquele senhor vivido nas artes e nos dinheiros, ou mesmo daquele que proferia palavras de outro mundo que até faziam sentido. A oportunidade perdida, tal qual a lança que encontra seu alvo, resulta em resignação e sentimento de que o corpo padecerá por não ter visto os claros sinais. Digam todos que estão felizes, palavra que nada significa agora. A insônia era apenas um singelo desconforto. O pesadelo eterno está durando muito mais.
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