Medos oníricos

O psicólogo vai ler e reler as anotações do paciente e não entender a recorrência daquele sonho. A casa dos pais, da forma como a memória de quatro, cinco décadas atrás registrou, se apresentou em vários enredos inusitados no mundo onírico. Lembrar da cor do portão antigo, das duas floreiras não mais existentes e compor o cenário com uma horda de mulheres tentando entrar na casa, dizendo que haviam sido convidadas para um evento qualquer, não tem explicação. O exercício da crônica bem feita foi objeto de reflexões neste espaço (https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2026/07/cronistas.html), com inúmeras fontes de alimentação da imaginação e não vou insistir naquilo que muito aprecio, mas não domino. Vou também me furtar a emitir opinião sobre o que representam a psiquiatria e a psicanálise nesses casos, mantendo em casa tanto a obra completa de Sigmund Freud como os livros sobre pseudociência de Carlos Orsi e Natália Pasternak. Se sonhar custa algo, que preserve a liberdade do pensamento.

As conexões cerebrais acontecem por caminhos que passamos a entender um pouco mais, mas ainda escuros e nebulosos. A neurociência é um conhecimento novo em mutação. Aprendemos, mas não apreendemos tudo o que ela nos diz. Nossa consciência e memória são, basicamente, pulsos elétricos e a realidade pode ser um mero jogo, tal qual as irmãs Wachowski nos convenceram nos filmes Matrix (o primeiro deles é de 1999, século passado!). Para alimentar o pânico temos a chamada inteligência artificial (IA), ainda mais depois que especialistas estão dizendo que o Brasil está, mais uma vez, perdendo o bonde do desenvolvimento tecnológico nessa área. O filme é profundo ao mostrar um futuro distópico dominado pelas máquinas, mundo em que somos meras baterias para fornecer-lhes energia, sendo nossa consciência apenas uma simulação dentro de um programa computacional. Mas, se querem perder o sono de verdade, basta assistir a Ex-Machina, de 2014, dirigido por Alex Garland, em que robôs praticamente humanos aprendem a aprender o que queremos e, é claro, nos dominam.

Mas, até agora, o que mais nos causa medo e pânico são os seres de carne e osso, constituídos geneticamente à nossa semelhança, que conseguem vender um mundo inexistente como sendo o real. E, mais ainda, a excrecência dos que vestem uma camisa verde-amarela, mas defendem cores outras, não as nossas. Se ficássemos apenas no simbolismo das ondas eletromagnéticas oriundas da separação pelo prisma não haveria grandes consequências. Porém, a ilustração é pintada pela subserviência que enaltece o estrangeiro em detrimento do nacional, do povo, da sociedade em que habitamos. São os incendiários econômicos que se disfarçam - mal e porcamente - de bombeiros, apostando, como sempre, no medo e na ignorância. Alguns estão nas redes defendendo o meio ambiente e a cultura e votando nos fascistas; não sei se a constituição de sua fé é má ou é má fé, simplesmente. Assim, acordo: começaram as escolhas dos que serão escolhidos. Que pânico!

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