Paradoxo anacrônico
Cronos, dentro do ecossistema grego, é o deus do tempo. Usei o termo biológico fora de lugar para provocar o leitor atento que vê essa palavra indevidamente utilizada em sistemas corporativos, cibernéticos e outras mazelas da modernidade. Fica como homenagem ao Biólogo, cuja data comemorativa da profissão se dá em 3 de setembro. De qualquer forma, a plêiade de ocupantes do Olimpo e cercanias é enorme, e Cronos nem é dos mais famosos. Por que inventamos tantos deuses? Os cristãos, os judeus e os muçulmanos dirão que basta um. Sim, eles inventaram os seus - e só naquele conjunto, somando, já são três -, mas baseados em tudo quanto veio antes de divindades perpetradas pelas mais diferentes religiões e crenças, as dos gregos aí incluídas. E antidivindades, pois quem cria o dono do bem, cria junto o análogo representante do mal. Para melhor entendimento dessa divisão da carga neutra que gera necessariamente duas de sinais opostos nada melhor do que O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. A constatação é que há muito mais santidades nos cânones religiosos do que elementos na tabela periódica. Outra provocação.
Ele pode até se desculpar pelos atrasos na criação, mas o cronista sem tempo é um paradoxo. Outro vocábulo importado do grego, significando algo em contradição ou uma afirmação que contraria o senso comum. Se é do tempo que o cronista vive e escreve, como pode viver sem ele? Etimologia é a arte da arqueologia da palavra, muitas vezes encontrando gravetos petrificados acreditando que fossem ossos de dinossauro. O cronista da etimologia, Caetano Galindo, na Folha de S. Paulo, se mostra, talvez, um pouco mais recluso do que seu antecessor, Sérgio Rodrigues. Um pequeno cochilo ou gralha - como se dizia antes -, apareceu na coluna da semana que vale o registro. Partindo do latim, ao explicar que "au" de aurum virou "ou" em ouro, contrapôs que o mesmo "au" de causam virou "oi" em coisa. Só que no texto impresso saiu "au" de novo, típico erro de revisão ou de contaminação pelo uso anterior da palavra. Para quem tem acesso: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/caetano-w-galindo/2026/09/por-que-uma-pessoa-pode-ser-loira-ou-loura-ou-isso-e-cousa-de-doudo.shtml. Cumpri minha função de leitor chato e informei o deslize no canal de comunicação do jornal, na timeline do Caetano, e até em mensagem particular pelo Instagram. Quase desistindo da empreitada, e conformado que nada havia adiantado, eis que hoje o autor gentilmente me respondeu com um franco e meigo: "pois eu vi; tardimais". Como dizem, a informação até circula em tempo recorde, mas o conhecimento não se estabelece. Pequena implicância. E o erro permanece.
O tempo nos cobra memória. Assistindo ao Metrópolis, programa da TV Cultura, a apresentadora Adriana Couto informou que, no dia do início desta escrita, 2 de setembro, Aldir Blanc estaria completando 80 anos. Houve um show do João Bosco no Teatro de Arena Teresa Aguiar, que faz parte do Centro de Convivência Carlos Gomes, em Campinas, recém restaurado, em que o grande sucesso da agradável noite, com direito a bis, foi O Bêbado e a Equilibrista, composta pelos dois, Aldir e João, cuja interpretação mais icônica foi na voz de Elis Regina. Música de outros tempos e outras (a)venturas. Passado que foi mal resolvido e volta com nova roupagem a corroer o pouco de avanço social conquistado. Em uma cidade com tendência política bastante explícita, anacrônica, bastando ver em quem aqui se votou, concluo que a maioria dos que ali estavam não tem a mínima noção do que a música representou e denunciou. Mas foi lindo e doce o espetáculo.
Parabéns pela linda abordagem! Você escreve com propriedade, termo que pode oferecer grandes discussões
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ResponderExcluirNa minha humilde opinião, e como Kant afirmaria ; ninguém cria nada, tudo se percebe, no tempo e no espaço certo, contudo , nem tudo nos é dado perceber. E porque não percebemos, não significa que não existe, por menor ou maior que seja, nunca é insignificante.
ResponderExcluirPena que Galindo viu tardimais que tinha escorregado. Tudo bem, isso acontece com quem escreve porque o raciocínio e a vontade de continuar é maior do que a percepção do erro de um termo. Tentei ler a referida crônica, mas não sou assinante e não consegui.
ResponderExcluirObrigada por enviar seu texto. Parabéns 👏
Lutar com as palavras é a luta mais vã… Mas como é agradável ler esses seus enxutos parágrafos, caro blogueiro! Muito grato! (P.S.Viana)
ResponderExcluirSerá que inventamos os deuses para matar o tempo ou para tentar impedir que ele nos engula? De qualquer maneira, muitas vezes descobrimos que é tardimais mesmo! Mas uma música é capaz de fazer voltar o tempo, principalmente se foi o tempo da nossa juventude.
ResponderExcluirExcelente texto, Adilson!