Crivos e cravos

Escrever deveria ser escrito ex-cravar. Cravar possui várias conotações e uma delas é acertar com precisão (na verdade, o correto é acertar com exatidão, para ficarmos no conceito estatístico mais comezinho). Se o sentido é o de acertar, escrita é erro, daí ex-cravar, não cravar. Talvez tenha sido acerto em algum momento de sua elaboração, mas não é mais. Dos papiros fidedignos à falta de memória às escrevivências de Conceição Evaristo, o processo de registro de palavras e frases a partir do contato do grafite com a celulose é mentiroso. A testemunha ocular do fato é míope - se não cega -, uma vez que, se já é difícil registrar nos meios intestinos o que vai em curso no mundo, o que se dirá daquilo que é fruto de interpretação, da ação do intelecto? Melhor é manter o escrito no ex-crivo da falsidade e aceitar que a melhor literatura continua sendo o retrato da realidade porque ela, a dita realidade, só existe como conceito teórico.

Em verdade, escrevemos o que lemos e por isso, em várias cutucadas aqui e alhures, instigo e pergunto aos acadêmicos e outros interessados culturais o quanto e o que leem. Se pouco ou nada, também nada ou pouco escrevem. E não vale a leitura de resumos na internet, pois contamos a matéria substanciada de literatura robusta, aquela compilada em páginas densas, quer seja a poesia que cura ou machuca, quer seja o romance que traduz mundos existentes ou imaginários, quer seja a crônica, tantas vezes enaltecida pelos que fazem do tempo presente a permanência futura do pensamento. Independente de criar uma nova forma de escrever, se é literatura, o é pelo escrever denso, oriunda, não por definição, mas por condição, da leitura igualmente densa. O leitor mais atento dirá que a densidade química e física é a quantidade de matéria por volume que ocupa. O denso aqui não se mede em palavras, mas em perenidades.

Depois de ex-cravar, escrever poderia ser ex-cavar. Cavar, cavar, e retirar para fora o que dói de dentro, pois isso existe e machuca, como machuca! A arte da crônica se dá aí, no observar das dores suas, dos outros, do mundo. O que dói, aflora, e a dor aguda vira crônica. Mas no cavar, algo ocupa o espaço anterior: o vácuo das ideias inexiste, à semelhança do vácuo político. A crônica e seu cronista devem prever e preencher espaços nunca antes ocupados em constante criação literária. A crônica não estará, por óbvio, sempre associada à retórica, a que pode falar muito e nada dizer. Um desses donos da retórica podia até não dominar a arte da crônica escrita, é o que sabemos. Seus longos discursos de horas são icônicos, históricos, lembranças agora daquele homem centenário, se ainda vivo fosse, neste dia 13 de agosto, que é tido e havido como de maus agouros. Mas foi um castelo fiel na origem do nome. Por fim, não deixemos esta subversão linguística terminar em es-cravo, pois, ainda que de mesmo som, não é ex, é sempre. Não é o que foi, é o que permanece. Negamos a circunstância desse passado tenebroso porque negamos os porquês das necessidades e rumos da sociedade de hoje. Sociedade que dói e que procura se escrever entre cravos e crivos.

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