Aprendemos a adoecer
Ipês rosas já colorem praças e beiras de estradas. Apressados, empurrados pelo clima mutante que nos açoita há tempos, florem majestosamente com recados temporais incômodos. Mudamos as regras sem ter mudado o jogo ambiental. Parece que estamos perdendo, uma vez que, para o universo, tanto faz para onde irão os átomos que nos compõem após uma possível tragédia que aconteça com nossa existência. Seres humanos pensantes que somos, pensamos que somos muito importantes. O pensamento vira autoengano, digno até da sobrevivência, mas não da opulência composta por tantos neurônios e circuitos elétricos interligados. O susto climático já está absorvido pela rotina, mas assusta de forma ampliada quando especialistas da área declaram que passamos do ponto de retorno e, agora, cabe investirmos não mais em reverter o aquecimento global e outros danos ambientais, mas, sim, a aprendermos a viver e conviver em um novo mundo mais quente e mais instável. Um mundo ambientalmente doente. Talvez não seja o caso de já estarmos em estágio terminal, dependente de cuidados paliativos para sentir menos dor. Ainda não.
Doenças são sempre perdas e a lei da compensação - ou qualquer outro nome que se dê - é parte da sobrevivência ou cura. Perdi um colunista que falava a língua de todos. Sérgio Rodrigues foi dispensado do jornal Folha de S. Paulo; perco referências, e faço meu protesto. Ato contínuo, colocaram no lugar outro provavelmente de jaez semelhante, mas diferente, bem diferente em estilo. O jornal erra a mão em suas decisões. Assim escrevi para o jornalão: Tudo na vida é efêmero e superável, mas a saída de Sérgio Rodrigues, por decisão unilateral da Folha, não parece justificada. Mais do que aprendizado, ele nos trouxe o deleite com a língua, com todos lances e nuances. Lamento. A carta não foi publicada, mas outros leitores reclamantes foram ouvidos, ao menos. Sérgio Rodrigues, algumas vezes apresentado neste espaço, foi substituído por Caetano Galindo, autor de "Latim em pó". Falei dos dois em "Letras que dizem" (https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2023/12/letras-que-dizem.html). A língua pode estar morrendo ou em constante mutação a depender da forma como compensamos a perda. Nós é que continuamos a doer com ela. E com as substituições que acontecem à revelia, de pessoas e de palavras.
A língua e outras partes da cultura e do corpo se deterioram, naturalmente. O que delas resulta após a transformação é fruto da evolução e aprendemos a conviver com tais novas situações. Do latim foram construídas muitas outras línguas, antes de se voltar ao pó, e a língua humana é objeto de desejo e de prazer sem igual, sabendo-o quem as usa. Em consequência, aflora da expressa e lasciva observação que saberes e sabores advêm desse músculo bucal, pedindo vênia a Rubem Alves e clamando para o latim - mais uma vez - a elucidação da origem única dos dois conceitos (de sapio). Assim saboreamos o que sabemos, usando a língua conectada à rede neural natural para transformar tudo em palavras ditas e impressas. Outras partes corporais são necessárias para a empreitada, não nos esqueçamos, ainda que artrite e artrose dificultem o deslizar dos dedos pelo teclado para a transformação moderna de pensamentos (e desejos) em palavras. Aliás, o dedo compõe com a língua a atividade mais nobre de corpos que interagem para doerem menos e gozarem mais. No entanto, o joelho degenerado dói e permite curtas caminhas pelas ruas do bairro. Na andança, vejo que os ipês amarelos invejaram os rosas.
Magnífico; só aplausos !
ResponderExcluirAdorei! Espero que os ipês continuem a florir e a se disputar apesar das mudanças no clima. Também pouco podemos fazer pela mudanças com consequências pessoais importantes. Ainda menos em relação à lingua– em constante movimento. Que saibamos florir na primavera que se aproxima!
ResponderExcluirExcelente crônica!!!
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