A plástica poética do vôlei
O voleibol é um dos poucos esportes coletivos por cujas equipes ainda ainda vale a pena torcer. Assistir a uma partida é emocionante, mesmo a de campeonatos de menor expressão e com equipes de nível fora da excelência internacional. Simultaneamente, começaram as finais da Liga da Nações de Voleibol Feminina (VNL) e a Copa Sul-Americana de Voleibol Feminina. Já que os meninos decepcionaram e sequer se classificaram na VNL, a torcida ficou exclusiva para o outro naipe. O primeiro jogo das meninas contra o Japão foi vencido com alguma apreensão. Segue a semifinal da equipe contra a Itália neste sábado, 25/7, para, com uma pitada de sorte, encarar a Turquia ou a China no domingo, já que os Estados Unidos surpreenderam e perderam o jogo contra as donas da casa. Bem, donas hoje, pois Macau, local das partidas dessa reta final, já foi colônia portuguesa um dia, até quase o final do século passado. As ruas de lá ainda mantêm a dupla indicação, em mandarim e na língua de Camões. Sei disso porque ouço o que os comentaristas do rápido e delicioso esporte dizem, além das estatísticas do jogo e das obviedades das estratégias, ataques e defesas. Em Macau viveu Camilo Pessanha, poeta português cujo centenário de morte se comemora neste ano. Seu domínio (ou não) do mandarim é objeto de estudo e controvérsia até hoje e, para tanto, vale consultar Paulo Franchetti para saber um pouco mais (https://paulofranchetti.blogspot.com/search/label/Camilo%20Pessanha).
A máxima traduttore, traditore (o tradutor é um traidor) virou lugar-comum e até irrita quando é citada, mencionada e escrita - maldita! Brigando com letras e leitores, o poeta obriga-se a ser perfeito, qualquer a língua pela qual opte. A mediocridade assusta-o e virou palavra comum em sua boca digitada nos grupos de WhatsApp, mas, vá lá, indigna da posição por se apresentar com muitos erros ortográficos. O verso duro e robusto composto com ênfase na mitologia humana encontra as letras e afugenta os leitores. Ele, o leitor, gostaria da leveza da palavra, mesmo diante da aridez da vida. Afirma ele, o poeta, que não existe diplomacia literária, pois, ou ela é de excelência, ou não é. De minha parte, não adentro línguas outras além da última flor do Lácio. De minha parte, também, prudência e anonimato convivem em sobrevivência mútua, e jamais saberemos a autoria dos pressupostos - ou descalabros, dirá o editor de instrumento impresso ainda existente, também anônimos aqui para o devido registro exangue, ou seja, sem hemácias desnecessárias a pulular por aí.
A poesia é plástica. Também plástico é o esporte predileto. A plástica de um movimento no voleibol começa com o preparo para o salto, passa pela devida alocação do braço forte, a formação da alavanca em pleno ar e passa-se a impelir o corpo para frente, transferindo a energia cinética para a palma da mão, que atingirá a bola em sua maior potência. No entanto, ainda naqueles milissegundos de voo, a direção do ataque poderá ser alterada, pois a atleta já vislumbrou para onde se movimentou o bloqueio da equipe adversária. Se o golpe será na paralela, em uma diagonal curta ou longa, ou mesmo na chamada paragonal - neologismo voleibolístico pertinente -, somente sua experiência e confiança é que determinarão. Com o advento da tecnologia de imagens de alta resolução, os detalhes da plástica do movimento, antes apenas imaginadas, podem, agora, ser vistas com detalhes primorosos, confirmando e reafirmando o sentimento do torcedor que está ali, não pelo resultado do ponto ao ver a bola quase arrancando tinta do chão da quadra adversária, mas pela sensível combinação de arte e física, de músculos e leveza, de movimento e energia. Ponto para nós, espero.
Minha neta adora vôlei. 👏👏👏👏👏
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