Sem som ao redor

O pequeno veículo automotor de duas rodas já foi chamado de Vespa e de Lambreta, e aparece silente ao lado do carro. Apenas a sensação de uma sombra pelo retrovisor deu o alerta de que algo se aproximava pela via. Creio que não são classificados como motocicletas e esses novos modelos de transporte individual, ainda que aquele em particular estivesse levando uma criança na garupa, são considerados ambientalmente corretos por serem movidos a motor elétrico. Por não terem um motor de explosão interna, são muito silenciosos. Tão silenciosos a ponto de não serem percebidos. Ganha o ambiente, perde a segurança. A prática de cruzar pelas ruas - agora é o pedestre falando -, cuidando apenas do que os ouvidos acusam para saber se vêm ou não veículos, já não é funcional. Atropelamento e fuga no silêncio da alvorada. Daria um bom título poético para uma reflexão boba, mas já se torna realidade em centros urbanos. Longe de ser contra o avanço tecnológico da melhor opção de transporte, e, ao que tudo indica, mais correta em termos de sustentabilidade, mas uma nova educação para o trânsito se faz necessária.

O silêncio é refúgio da reflexão para deixar de ouvir as vozes do mundo e passar a ouvir apenas as vozes internas. Os crentes dirão que se ouve a alma, mas, inexistente que é, são os fluxos e refluxos das matérias e energias que nos contêm e, aqui neste obeso espaço, são contidas que nos falam. E têm muito a dizer entre sibilos e estridências, advindos de diversos tons e timbres. Parece-nos que enaltecer as ausências força a buscarmos essências, quer seja de sons, cores, vontades e pensamentos. Sendo que a palavra escrita foi, antes de mais nada, uma palavra falada, silenciá-la transformará seu significado em algo muito mais profundo do que explicitamente está a nos mostrar. Os sons do meu silêncio é o título da obra intimista de Lu Narbot - médica, contista, cronista, poeta e trovadora -, publicado por ocasião de seu 80. aniversário, dois anos atrás (A.R. Publisher Editora). Combinando prosa&poesia, ela nos revela a suavidade de lidar com palavras tais como estas, colhidas lá de dentro da obra a mim presentada: "Tempo e Destino são aranhas/ Teias tecidas com esmero". Há muito mais ali; deixo para os leitores imaginarem em seus silêncios momentâneos.

Estudar ouvindo música foi um artifício constante e necessário em outros tempos. (Oh, doces tempos de outrora, / se foram, não voltam mais, / pois se perderam e, agora, / restam saudades demais.) A seleção feita pela sintonia de uma rádio FM que não tivesse propaganda (normalmente uma emissora pública) era suficiente para o deleite e cumprimento da tarefa. O cérebro se dividia entre pulsos elétricos e ondas sonoras. Hoje é necessário possuir um aplicativo e submeter-se aos ditames do controle cibernético de dados pessoais vendidos a bom preço aos que passam a nos vender produtos e serviços com a "nossa cara". Para tudo precisa informar o CPF, fazer a biometria e quase "puxar a capivara" para adentrar o aplicativo implicante. Entregar o ouro ao bandido não é expressão das antigas, apenas mudou a cor do ouro. Os bandidos, nem tanto. Com isso, mesmo selecionando um disco virtual para tocar no youtube, a audição é interrompida pelos reclames. Ruído que antes não havia com a rádio predileta e o pensamento fluía muito melhor. Outro som quebra o silêncio - é dia de faxina em casa e o aspirador de pó continua assustando os gatos. Mas esse barulho é apenas uma vez por semana.

Comentários

  1. Sua crônica traz muitos elementos, que dançam ao redor do tema principal que é o silêncio e a força do pensamento. Mas permita-me observar algo. Tudo que tem um nome existe em algum nível, que nem sempre é dado a todos perceber (só aos que buscam encontrar) e portanto a alma é justamente o espaço onde acontecem nossas reflexões. Parabéns pelo rico conteúdo

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  2. 0.silencio alimenta o cérebro

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