Ficção científica

A folha em branco aceita qualquer impressão, qualquer registro, e fica quieta, à espera de ser molestada para suportar o peso do grafite, da tinta da caneta ou dos pixels luminosos transferidos do teclado para a tela. Desta vez, o primeiro impulso foi escrever sobre ficção científica, paixão adolescente que envelheceu comigo. Júlio Verne, H.G. Wells, Arthur C. Clarke e Edgard Allan Poe são os mais evidentes culpados dessa jornada a despontarem na memória. Houve outros. A série de ficção científica alemã Perry Rhodan foi um presente que alimentou sonhos juvenis. Iniciada nos anos 1960, com seus 536 livros lançados no Brasil até 1991 pela Tecnoprint (que virou a Ediouro), tinha seus exemplares vendidos em banca de jornais e foi interrompida abruptamente. A série voltou a ser publicada pela SSPG em 2001, com retomada de onde parou e com a continuação da saga. Divulgo o site da revista para saudosistas e futuros interessados:  https://www.perry-rhodan.net.br/loja/. É considerada a série ficcional mais longeva, passando da edição 3400 na Alemanha. Uma das pessoas com que tive contato à época da volta da série foi Ruben Zevallos, pela internet. A rede mantém muita coisa, mas não divulga fatos importantes. Descubro somente agora que o Ruben faleceu há quase 14 anos. Ou seja, as informações não fluem como pensamos ou queremos.

A decisão foi a de falar de ficção, mas não falar de economia. Interessante, pois ambas lidam com o imaginário, mas somente aquela é explicitamente assumida como não existente. As duas preenchem páginas espraiadas por vários cenários e gostos e até capturam os desavisados como se realidade fossem. Viagem no tempo é um dos temas mais adorados pelos ficcionistas, dada a sabida impossibilidade da empreitada, ainda que o filme Interestelar, de 2014, dirigido por Christopher Nolan (o mesmo diretor do atual Odisseia), dá uma solução muito criativa para romper essa barreira. Assisto a ele sempre que posso. Não é inverossímil como o enredo da trilogia De Volta para o Futuro (lançados de 1985 a 1990, todos dirigidos por Robert Zemeckis), outro clássico amado. A economia não deixa de ser uma forma de viagem no tempo, uma vez que consegue - ou tenta - fazer uma previsão do passado, com muita imprecisão, dizendo-se científica para tanto. Procuro não polemizar com os economistas, mas é tentador criticá-los por usar fórmulas equivocadas do passado para prever e propor alternativas e formas de administrar as riquezas das pessoas e das nações no futuro. A ficção que tem o qualificativo 'científica' não passa a se tornar ciência pelo uso da palavra.

Esta nota nostálgica não agrada a todos, sabemos. A ficção científica é tratada em algumas esferas literárias como obra menor. Ou melhor, sequer é tratada por não ser considerada literatura. Em altas rodas culturais pouca matéria criativa é verdadeiramente tratada que não seja limitada a regurgitar medalhas e medalhões. Os puristas dirão que literatura são os clássicos, sem espaço para novidades. Os humanistas dirão que é aquilo que trata das mazelas e vicissitudes. Os modernos, talvez, afirmarão que literatura é tudo aquilo que o leitor ou o escritor diga que é literatura. Até concordo, desde que acompanhada de uma xícara de café ou uma caneca de chá. Mas, particularmente ao recorte literário destas linhas, tratar da economia, da magia ou do fantástico não é mais nem menos ficção do que dizer que apoia as artes, a cultura, a doce língua portuguesa e, daqui a uns 40 dias, vai apertar botões do mal, correspondentes àqueles que sempre desprezaram e quiseram acabar com tudo isso. Ah, mas e a moral e os bons costumes? Um pouco de bom senso e uma canja de galinha, ainda que requentada, seriam providenciais e não ficcionais.

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