Guilherme de Almeida
A cerimônia mesclava a natureza cívica da Revolução Constitucionalista de 1932 com a forte presença de militares e membros da polícia estadual e da guarda municipal. Não me incomodava, ciente que já não vivíamos há cinquenta anos e, esperamos, não mais viveremos aqueles plúmbeos tempos. Autores e autoridades circulavam pela praça, alegres e comunicativos. A bela fotógrafa da Força Aérea Brasileira registrava os momentos da solenidade, sem esquecer que ali estava em designação de uma força para atuar em outra, pois nem vento havia para esvoaçar cabelos, muito menos para levar aos céus - de um azul de brigadeiro, com óbvio trocadilho - objetos que devessem ser interditados por caças supersônicos, fossem identificados ou não, pilotados, talvez, por seres nem cinzas, nem verdes. Ela sorria. E o sorriso na pele amorenada cintilava e cativava. Não se esquecia que tinha de acompanhar o senhor alto, esguio, de alta patente e farda quase sem espaço para tantas insígnias. Localizei-a, depois, ao fundo de outras fotografias, mas a inteligência dita artificial, incompetente, diz que a resolução das imagens é muito baixa para reconstituir um rosto com maior definição. Ao menos retê-la na memória não é, ainda, invasão do espaço alheio ou assédio.
De tudo o que Guilherme de Almeida compôs e produziu, talvez a Canção do Expedicionário (música de Spartacco Rossi) seja uma das mais representativas da identidade cívica e cultural do país. A alusão não é pelo valor literário ou musical, mas pela capacidade de junção de elementos nacionais (ou nacionalistas, como outros rotulam) em um momento de forte tensão mundial. Porém, se fosse hoje, o autor teria de explicar por que quase toda a composição é feita de citações de outras obras, literárias e musicais, colocando aspas em quase todos os versos. O mérito não lhe é tirado porque teve a iniciativa de juntar memórias afetivas importantes para os pracinhas que iriam lutar na Europa na Segunda Guerra Mundial. Dizem que a canção é conhecida lá fora até hoje. Mas os registros mais fidedignos afirmam que a música teve enorme sucesso em solo brasileiro, não sendo de ampla divulgação lá fora nem durante os combates, até porque sua extensão, longa, não era condizente com assovios rápidos de entretenimento e atenção constante às operações que deveriam estar em curso. Assim, Guilherme confirmava ser um expoente a cada década: 22 na Semana de Arte Moderna, 32 na Revolução e 43 na Canção do Expedicionário.
👏👏👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirFantastico Adilson! Belo trabalho!
ResponderExcluirLeitura incrível ricamente densa, histórica e culturalmente falando. Coêncidencia ou não estou lendo uma obra de um autor da época (Martin Biber 1878 - 1965)
ResponderExcluir*Buber
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