A cor da dor da flor
Para ser telúrica, Baby Consuelo, antes de ser do Brasil, cantava o significado das cores e o pensamento das flores. Cor e flor são rimas fáceis em qualquer poesia, mas, de difícil, a vida já se completa. Então deixemos a rima correr solta, sem prisão explícita - que é para pobre -, ou disfarçada, que pega pelo tornozelo - que é para rico. Contemplemos a mescla da cor com a flor ao menos para distensionar. Outras canções clamaram por levar a flor para vencer o canhão, compreensível também hoje, quando há agitação nacional para ver bolas batendo em pés e pés batendo em canelas e canelas rolando pela grama, pois essa movimentação traz consigo a peculiaridade de confundir o uso das cores com a traição à Pátria. Um paradoxo se formou, portanto. Quando morei na Alemanha, os nativos se admiravam com o uso das cores de nossa bandeira. Eles ainda se ressentiam das guerras mundiais e do que o nazismo havia causado a todos. Diziam ser impossível usar as cores sem que parecesse exacerbação nacionalista, quase criminosa. Décadas se passaram e hoje grupos neonazistas ascendem ao poder alemão. Orgulho vira preconceito.
Resgatando a cor verde, a semana em curso é devotada ao meio ambiente. Biólogos dizem que o termo é redundante, uma vez que ambiente ou meio expressam, individualmente, o sistema complexo em que todos os seres estão. A ironia diz que o ambiente deveria ser protegido no todo, não somente no meio. Fato é que a etimologia esconde a insuficiência de ações para defender nossa existência de forma digna, segura e sustentável. Junho carrega as festas típicas nordestinas e caipiras, e a primeira semana é devotada ao ambiente, com ápice no dia 5, não somente por ser meu aniversário. A Conferência de Estocolmo, da ONU, estabeleceu a data comemorativa em 1972, já cinco anos depois de minha entrada no ecossistema terrestre. Digo assim sem querer confundir que estive em outro ambiente antes, pois é certo que a vida é determinada a partir da criação do tubo neural e se encerrará quando o cérebro não mais funcionar. E a vida é telúrica, neste planeta, pois não conhecemos outra vida alhures, explicitada por todas as flores e dores que por aqui há. Que exista, queremos que exista, mas não a sabemos. Ainda.
Dizem que sem a dor não haveria poesia. Controversa afirmação e fiquemos com a constatação de que, ao menos, a poesia de protesto expressa em versos e na música é riquíssima. Meu primeiro poema assim foi: Pássaro Prisão foi um libelo adolescente indignado com o racismo explícito do gerente da loja de tintas em que trabalhava praticado contra um homem negro que adentrou o recinto pedindo informações. O ano era 1982 e já não fazia parte de tempos tão bicudos, mas resquícios de dores políticas e históricas não curadas são sentidas até hoje. Uma dor nos sentimentos leva a lamentos, que os sabemos de cor e salteado. Odes amorosas carregam, quase sempre, o desejo junto à distância, a vontade junto à desilusão. Levamos flores aos amados talvez para lembrar que tudo é vida e absorção/emissão de energia para produzir as cores que as pétalas exibem. Ou talvez, inconscientemente, apenas para clamar por algo além de beijos e carinhos, uma vez que se exibe o órgão sexual. De uma planta, no caso.
Sem dor tbn não há lembranças
ResponderExcluirAplaudo com carinho o aniversariante que nos oferece um
ResponderExcluirPresente tão bem lapidado. Palavras encarnadas, em pétalas perfumadas! Mesmo dizendo de dores ressalta, a todo todo tempo os amores: pela vida, pelos seres, pela ética, pelas boas lutas!
Margareth