Nádegas, pés e cabeça
O que nos suporta são os pés, as nádegas e a cabeça. Sedentários que nos tornamos, os que levam uma vida burocrática ou passiva interagem com o mundo cibernético das tolas telas sentados. Aí está o papel fundamental das nádegas. Para sentar e sentir. O termo mais popular é b*n*a, que deixou de ser achincalhe linguístico ou termo de baixo calão, mas não a consignarei aqui. Pudor? Não, apenas não julgo necessário, explícito que fica. Carlos Drummond de Andrade majestosamente disse que ela é engraçada e sempre está a sorrir. As nádegas em sua forma popular foram parar nos ditos populares. Um deles diz que não as tirar da cadeira significa preguiça, vagabundagem (olha quem aparece entre vaga e gem!), leniência ou pura falta de vontade de fazer alguma coisa útil. Nas músicas, Rita Lee, em Pagu - composição com Zélia Duncan -, diz que nem toda brasileira a é, e ela é a mais sublime no Tango do Covil de Chico Buarque, interpretada pelo MPB4, em cuja melhor interpretação são colocados, como introdução, aqueles versos de Drummond. Sim, se femininas, são lindas, de sentir e sentar.
Os pés nos levam para lá e para cá e trovadoramente podemos afirmar que: Os pés que levam por si / corpos que querem pensar, / também vagam por aí, / pois querem ir para o mar. // Ah, o mar vagueia em prosa poética para nos receber de onde saímos, milhões de anos atrás. Assim andamos e por eles doemos; os pés são o segundo coração, dizem. Pelas contas, deveriam ser o segundo e o terceiro, já que são dois os pés. Ajudam a bombear o sangue que vai para as demais extremidades, afirmam, mas tenho minhas dúvidas, dada a pressão grande que os batimentos cardíacos já fazem na bomba-máster, suficiente para chegar a todos os rincões hemodependentes. Alta pressão, controlada no meu caso com losartana e indapamida, em situação prestes a desentupir as veias por um cateterismo já agendado (agora também já realizado, fica registrado). Grande corrente de consultas e exames, maratona de fôlego, com pés, pernas, coração e um pouco mais... tudo para evitar o último dos médicos, o legista. Lembrei que a pia da cozinha também precisa de uma manutenção, mesmo tendo a caixa de gordura para salvar a tubulação que corre pela rua. Nossa caixa de gordura é a parede da própria condutora sanguínea.
Na outra ponta, a cabeça é tudo. E também dói. Na data de início das presentes reflexões, no tardio 23 de maio, ela me fez lembrar que há 94 anos, no ano de 1932, jovens foram baleados pela polícia de Getúlio Vargas quando protestavam. Quatro vieram a falecer imediatamente ou dentro de poucos dias e deram nome ao movimento que fez eclodir a revolução Constitucionalista. MMDC - Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Um quinto estudante viria a morrer posteriormente, em agosto, e não foi incluído na sigla. Alvarenga foi ele e completa o quinteto. Há ruas e avenidas que lembram a data, mas, tal qual tantas outras efemérides, ficam relegadas à memória do esquecimento. Por isso a importância das comemorações e espaços de lembrança, como o blog de meu confrade José Antônio Bittencourt Ferraz (https://lorenafilatelia.blogspot.com/2026/05/dia-do-soldado-constitucionalista.html). Porém, no trânsito, passamos por tais logradouros tão distantes quanto levamos nossos pensamentos para longe de tudo o que é importante. Depois que tiramos as nádegas do assento, os pés parecem errar, não estão sendo bem conduzidos por desígnios equivocados de uma cabeça que pensa que não compensa sempre estar pela verdade, pois - vamos a outro sábio ditado - a mentira, diferente de nossas limitações, é derrubada a galope de cavalo escuro.
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