Outono em poesia

A poesia é tão importante que possui várias datas para ser comemorada. O dia 14 de março era a consagração de Castro Alves, data de seu aniversário. Mas, em 2015, os legisladores resolveram mudar a situação criando um dia oficial para ser o Nacional da Poesia, 31 de outubro, aniversário de Carlos Drummond de Andrade. Uma lei cujos números (Lei 13.131, de 3/6/2015) causam espanto. Há os que não conheceram a lei, outros que não a reconheceram, e as duas datas são usadas nas comemorações. Temos ainda, nas próximas horas, o Dia Internacional da Poesia, a 21 de março, determinado pela Unesco, praticamente inaugurando o outono. A lei diz que é para ser celebrado o dia nacional da poesia nessa data, mas não informa, como tantas outras, quais são as punições para quem não a cumpre. Tampouco determina quais são as celebrações cabíveis. Cantar o hino? Recitar um poema de cor, tal qual brilhantemente fazem os declamadores ainda existentes (Pedro Dias é um deles, para ilustrar)? Ou devemos comer uma lauta macarronada regada a bom vinho para acompanhar? Não sabemos, pois a lei se cala, ainda que clame pela verbalização dos sentimentos mais íntimos que são os poéticos. Vejam só, para não haver briga nem discussão, façamos e comemoremos a poesia todo dia, de qualquer jeito, pois angústias que necessitam de lavagens verbais não nos abandonam. São onipresentes.

Cultura é um caldo de ingredientes advindos da formação de um povo. O tempero que se sorve será mais saboroso quanto mais heterogêneo for. Por isso, a condição brasileira é única no mundo, com a base cultural feita de muitos continentes e muitas diásporas. O indígena que aqui estava foi massacrado e, mesmo assim, conseguiu transmitir sua cultura, assimilada pelo colonizador assassino e pelos outros que aqui passaram a habitar. Brancos europeus chegaram em várias ondas ao longo dos séculos e cada um de nós tem uma história e uma herança cultural a cultuar. É claro que enaltecemos o passado glorioso dessa família europeia, deixando os podres para os porões da história, torcendo para que nenhum entusiasta do restabelecimento da verdade dos fatos venha a investigar e elaborar uma tese sobre o assunto. Diremos solenemente que somos inocentes. Mas é de alimento cultural que se fala e de África talvez seja a mais generosa e profunda das contribuições, uma vez que o escravizado foi trazido aqui a ferro e teve seu sangue derramado neste solo para a construção do país em que hoje vivemos. De origens múltiplas no continente nativo, sua cultura foi parcialmente se moldando aos ditames dos senhores, mas também influenciando o modo de ver o mundo que por aqui predominava. Cultura saborosa, sem esquecer que sua origem é amarga.

Dos acontecimentos da semana, sempre repletos de emoções e tristezas, enalteço um que simboliza a sopa cultural que nos alimenta, coincidente com a mudança de estação, que foi a posse do escritor Daniel Munduruku na Academia Paulista de Letras (APL). É um orgulho para a comunidade de povos originários e também para a cultura valeparaibana ter um de seus representantes na APL. Daniel Munduruku possui uma história literária, cultural, política e humana sem igual, muito sólida e robusta. A lista de seus prêmios é grande, mas o Jabuti de 2025 não poderia ter ficado de fora, junto aos outros dois citados nas reportagens de jornalões da capital paulista. Lapso inocente, dirão uns, estocada proposital, constataram muitos. De qualquer forma, a fotografia do também escritor Joaquim Botelho, filho de Ruth Guimarães, abraçando o agora novo imortal Daniel é de uma simbologia ímpar. Milênios de cultura atravessam os incontidos continentes que esses dois confrades da Academia de Letras de Lorena representam. Sim, são imortais em outras geografias também, pois o tempo da consciência se dá no espaço da existência.

Comentários

  1. As palavras do Adilson Roberto nos levam a pensar na existência sensível aos sentidos e na existência que habita o mundo intangível das expressões humanas: o que passa e o que fica.

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