Gramática bélica
Na minha juventude, anos 1980, a grande guerra em curso era o conflito Irã x Iraque. O termo barril de pólvora designava o Oriente Médio e mesclava a beligerância regional - que, na verdade, era resultado dos interesses mundiais -, de base explosiva, com a medida de comercialização do petróleo, o ouro negro que move a economia global até hoje. A chamada guerra fria ia em curso, a União Soviética, o Muro de Berlim e generais brasileiros de plantão em planaltos e porões ainda existiam. Décadas se passaram e a região continua guerreando ou sendo instigada ao conflito porque o petróleo continua lá existindo. Não por menos, o livro "Petróleo, Mola do Mundo", de Peter R. Odell, publicado no Brasil pela Editora Record (1974), era uma referência para o assunto. Se a grande fonte de energia e de matéria-prima passasse a ser o esgoto doméstico, com certeza os conflitos se transfeririam para outros locais. No Brasil, por exemplo, Congresso Nacional, Palácio dos Bandeirantes, rio Tietê e Baía da Guanabara seriam os alvos mais evidentes, tanto para atentos olhares, quanto para sensíveis narizes.
A nova guerra deflagrada contra o Irã, tendo por adversários beligerantes Israel e Estados Unidos (confesso que não estou bem certo de todas as partes envolvidas até aqui, pois o mapa se amplia a cada notícia que aparece), nos propiciou também um exercício de gramática da língua portuguesa. A imprensa testou os leitores com o uso do sujeito definido, quando informou que o Irã disparou contra Israel, lá matando pessoas, e "optou" pelo sujeito indefinido, quando escreveu em suas páginas que crianças foram mortas no Irã. Interessante que em um caso pôde-se saber exatamente o agente da ação verbal, mas, em outro, os elementos de inteligência jornalística omitiram que se tratava dos mesmos EUA e Israel os sujeitos. A princípio, parecia uma pegadinha de concurso público ou pergunta de sobreviventes programas de perguntas e respostas. Estudiosos dizem que, por certo, foi um excelente exemplo de semiótica, mas não quero afirmar que houve (má) intenção por parte da imprensa, ainda mais ela que se arvora em ser isenta e plural. Abusando dessa indefinição gramatical, dizem por aí que concordar substantivos e adjetivos em relação ao número não é suficiente para ser socialmente plural.
A briga do escritor com verbos e predicados, com substantivos e adjetivos, pode ser violenta, destruidora de folhas impressas e arquivos gravados, ou mesmo causar litericídios, mas, ao que se saiba, não vitimam crianças inocentes. O autor mata um personagem, às vezes até o protagonista encontra o sono eterno, mas não é capaz de ferir a libélula que sorve água da poça d´água formada após a chuva fina em seu quintal. Se espanta moscas, é para lembrar do suor da transpiração, aquela que corresponde a 90% do esforço de criar, completada pelos 10% de inspiração. Não tem a intenção de matá-las. O distanciamento é a arma que usa para se livrar do problema, deixando adagas, sicas e outras belicosidades para outrem. E para não dizer que não falei de poesia, aquela que transgride a gramática sem propriamente assassiná-la, dois livros me chegaram hoje para deleite: "Poesia completa", de Gilka Machado, e "Galáxias", de Haroldo de Campos. Nada mais diferente poderiam ser as duas obras entre si, com dois estilos ímpares, mas não os comentarei, por enquanto. Quero sorvê-los enquanto sorvido pela beligerância mundial a satisfazer um certo doidivana alaranjado.
Um texto simplesmente brilhante Adilson Gonçalves, unindo lucidez geopolítica à sensibilidade da escrita. O texto percorre com perfeição entre a dureza dos conflitos mundiais e a reflexão poética, revelando tanto domínio da técnica literária quanto uma profunda consciência social. Uma leitura crítica e extremamente necessária. Parabéns!
ResponderExcluirA leitura e análise do discurso das mídias e dos políticos é algo fascinante!
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