Calcinação do carnaval

Carnaval aquecido na avenida, nos clubes, nas praias e nas ruas, e até no frio suíço conquistamos uma medalha! E foi a primeira e foi de ouro. Lucas Pinheiro possui família em Campinas e a imprensa local descobriu a existência de esporte em que pás deslizam sobre a neve. Sim, e que neve existe para além daquele estado nacional fascista. Porém, está derretendo aos borbotões, mesmo com os negacionistas dizendo que não existe o aquecimento global; o que neva ainda consegue preencher estações de esqui para tais competições, completando com a chamada neve artificial. Ganhamos até na olimpíada de inverno e não foi na bocha adaptada, impulsionada com escovinhas riscando o gelo, nem no carrinho rápido, tripulado por velocistas. Na Terra das Andorinhas, dizem, já há pedidos para a criação de pistas para a prática do inusitado esporte, o da medalha conquistada. Mas, e o futebol, heim? Poderiam usar algum estádio local e adaptá-lo. O uso seria mais nobre e não para servir de empréstimo a time da capital ou captar time de infinitésima divisão (só não é zero porque na divisão daria infinito e a matemática cria caso com esse número no denominador da fração).

Adentramos o período pós-carnavalesco que combina o choro dos que tiveram suas escolas rebaixadas ou que não ganharam o prêmio maior com as cinzas. Na parte em que posso opinar, creio que deveriam ser cinzas inorgânicas. Em química, a definição de cinzas é o resíduo sólido que sobra após a incineração ou calcinação de um material a altas temperaturas, que podem variar de 600 a 800 graus Celsius, a depender da técnica e objetivos do processo. Quem trabalha com vegetais, por exemplo, assume que as cinzas significarão tudo aquilo que não é orgânico (formado por átomos de carbono), restando o material inorgânico, ou seja, íons metálicos, principalmente, na forma de óxidos. As cinzas desta quarta-feira carregam material carbonáceo, pois não houve preocupação com a queima completa. Seriam cinzas de uma fogueira. Nas cinzas, pelo que diz o calendário, enquadram-se festividades religiosas, ao menos de uma das centenas de religiões que existem. O carnaval foi sempre chamado de festa pagã, mesmo que todos os deuses lá estejam para festejarem junto do povo. Em crítica ao crítico que criticou a ofensa a sua religião - sem se importar que a religião dele é a que mais ofende as demais - plasmei uma trova que não será ungida pelos mestres do ofício: Deuses são para escolher, / pois tudo é uma questão de fé; / o que não pode é dizer / que um é bom e o outro não é.

Se a cinza escolhida não é a mineral, ainda que justificada pela praticidade, outras seleções se fazem necessárias. Por exemplo, a qual grupo você gostaria de pertencer? A um que comemora o rebaixamento de uma escola de samba? Ou a um que comemora a premiação internacional de um filme brasileiro? Parecem universos distintos e excludentes na escolha, mas não. O calor da escolha representa muito da frieza com que o autocrédulo hipócrita desdenha do que o muito realmente é. De qualquer forma, o período de quarentena em que entramos é quaresma religiosa, pois quaresma e quarentena têm a mesma origem e significado: um período de 40 dias. Na minha santa ignorância, nem um nem outro vale mais. A quarentena pode ser de vários dias, começando com uns 15 e indo até 2 anos, como vivenciamos na pandemia (à época refleti sobre o assunto: https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2020/03/quarentena.html). A quaresma serve para penitência dos pecadores e reflexões religiosas. Eles que pensem na pequenez de enaltecer o pecado alheio e escamotear os próprios.

Comentários

  1. Não suponho que todos os leitores alcancem a fina ironia do Adilson. Os conhecimentos de Química se apresentam mais úteis do que as minhas melhores expectativas poderiam imaginar. Adilson, percebo que você vê de um jeito personalíssimo tudo. E é generosidade sua oferecer tanto em tão pequeno espaço de palavras.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acompanhar seu raciocínio täo cheio de sutilezas é um desafio grande!

      Excluir
  2. Três parágrafos sempre riquíssimos, de ideias, fatos, humor e picardia. Porém, o caráter político com ideologia explícita, muitas das vezes apaga a boa intençao e desestimula a leitura.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A mãe dos fatos

Felinicidade

Trabalho científico e cultural