Sentimentos em círculos
Sentir a falta de alguém com quem não se conviveu ou lamentar a morte de quem não se conheceu. Sentimentos ilógicos, talvez. Outros dirão que são apenas parte de nossa condição humana. Minhas lágrimas são apenas salgadas e não sei o quanto elas contribuem para apaziguar o sofrimento alheio. Mas são acontecimentos com sujeitos determinados, ainda que queiram nos fazer crer que é o acaso que determina certas mortes. O motorista que morre pela queda da árvore, fruto da falta de manutenção da prefeitura, sensibiliza. Querem convencer que é a malvada chuva a culpada. A menina que é arrastada pela enchente e desaparece, isso porque não houve ações de combate às mudanças climáticas extremas, comove. Novamente, imputam apenas à água que cai a razão da tragédia. Travamos muitas guerras no ambiente urbano, parecendo que todos querem ser xerifes, mas não há um gerente. Em uma guerra, ainda mais na urbana, depois da verdade, as vítimas mais tristes são as crianças. E também morremos de doenças e crimes, lembrando que o tempo passa num átimo, sendo cinco anos do início oficial da pandemia, e sete do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Justiça de fato haveria somente se eles estivessem vivos, como se manifestou a ministra Anielle Franco.
A circularidade dos sentimentos é para levantar lembranças mais doces, mais amenas. A ciência e a matemática comemoram o dia de hoje por conta de algumas efemérides e adaptações numéricas. Sim, os números governam o mundo, segundo Platão, epíteto que nosso Malba Tahan usou como título de um de seus livros. É o dia do número pi, a razão entre a circunferência e o diâmetro de todo e qualquer círculo. Seu valor é 3,1416, aproximado, e, em inglês, os três primeiro algarismos podem ser escritos como 3.14, significando 14 de março, que para nós é escrito como 14/3. Com um pouquinho de colonização cultural absorvemos o dia também para celebrar pi e a matemática. A data coincide com o aniversário de Einstein e a morte de Stephen Hawking em 2018, no mesmo dia dos assassinatos do parágrafo anterior. Algumas datas parecem ser cósmicas, como se todas não fossem. Os calendários são cópias do movimentos dos astros no espaço. Os dois próximos algarismos de pi são 16; então podemos precisar que no pretenso momento de publicação do blog, às 16 horas, estaremos quase coincidentes com o dia e o momento pi!
O 14 de março é também emoldurado pelo aniversário de Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914, data em que anteriormente era festejado o Dia Nacional da Poesia. Era até 2015, informalmente, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. A efeméride é mudada de tempos em tempos por leis para homenagear outro ou outra poeta ao invés do que estava sendo homenageado até então. Na cultura a regra não é distinta daquela do resto da sociedade, pois as leis possuem duas funções básicas: serem descumpridas e serem revogadas ou alteradas. Há, portanto, vários dias para comemorar a poesia, com dia mundial, nacional, global, local, nada mal para um gênero literário pouco lido. Vamos, então, lê-las: a Academia Campinense de Letras fará uma Ciranda de Poesias no próximo dia 20/3, sob coordenação de Margareth Park (https://www.instagram.com/p/DHEJ4Z1xR8I/). Para expressar a verve poética, todos os dias são de poesia, em especial os de silêncio, em que poemas não são ditos ou escritos. Eles estão sendo vividos dentro das angústias do poeta, gestados nos humores intestinos, criando coragem para sair de seu corpo e tomar forma. Circular, de preferência.
Que belo!!
ResponderExcluirMuito interessantes estes seus três parágrafos. Bem típicos de um cientista- poeta. Parabéns.
ResponderExcluirMaria Felim
Sentir falta de quem não se conheceu... sentir saudade do que não se viveu... Sinto falta de um país que poderia ser este... (PSViana)
ResponderExcluirFan-tás-ti-co!!!
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