Regência republicana
Regência gramatical é algo que já não existe mais. 'A coletânea que participo' foi assim anunciada por um escritor, solicitando colaboração para bancar a edição, o que me faz pensar o quanto ele domina a linguagem com a qual quer comunicar sua visão de mundo, seus sentimentos e pedidos de ajuda financeira. Se é falha na origem, o que dizer do que é perdido no caminho até chegar a quem lê. No longo trajeto entre as ideias e os ouvidos, as frases e sentenças se deterioram em fases e sensos. Ou será que a aposta é na semelhança de nível literário, ou seja, quem for ler é tão privado das regras gramaticais mais simples que não fará diferença usá-las ou não? Deve ser essa a explicação e a irritação é somente minha, ranzinzo de palavras ditas&malditas. Não, não sou afiado na escrita, nem formado em línguas não sensoriais, muito menos sabedor dos estilos e da linguagem, mas tento, ao menos, corrigir o que escrevo. Os dicionários e gramáticas estão aí para isso, ainda mais agora acessíveis ao simples clicar do mouse. Em paradoxo etimológico, regência é algo republicano, tornando o entendimento comum e acessível a todos. Não deveria ser corrompida.
A democracia da ausência faz com que meus silêncios se tornem palavras lavradas na folha branca do redator eletrônico de textos. Não me ouvem, talvez leiam-me. As clicadas revelam uma centena de pessoas que ao menos entraram nestas páginas. Se leram, é uma dúvida. Se compreenderam, é perto de uma certeza negativa. Outro dia o jornal publicou uma opinião minha, em júbilo pelo juízo, em apreensão pela fuga da musa não inspiradora. Divulgaram alhures, despertando o que há de melhor e pior em nós quanto à percepção da realidade e da vida agitada em curso. O silêncio de minha parte, até agora, foi a mesma moeda paga pelas situações do vice-versa, em que escritor e leitor, interlocutores que são, trocam momentaneamente de papéis. Ou seja, não respondi às críticas. Mas, voltando à musa, há razões históricas e científicas para os nomes das plantas, mas musa não seria a melhor expressão para quem está fugindo. A pecha vem de antes, musa em fuga. Camões já escrevia subliminarmente sobre o atual momento brasileiro sem o saber ou, quiçá, com premonições à Nostradamus? Sim, fake news antigos não podem ser usados como determinismos, apenas são estudos literários bonitos e instigantes. Mas a pequena musa se alevantando para o norte é para se cantar por toda a parte.
Artigos nos jornais locais e interioranos dão conta de extravasar republicanamente as opiniões enviesadas de um povo retrógrado que não se cansa e não se envergonha de sê-lo. Sem estampa. Não que o português lhes falte. Não. O português é até abundante. Outro dia, A criticou B com palavras poéticas de pelica e terminou aí o embate entre xarás, sem sangue derramado ou declamado. Por outro lado, colunistas enciumados clamam por citações naqueles mesmos veículos impressos. Façamos-lhes o desejo? Não, não os nominarei porque seria insalubre. Estou em tratamento médico, combatendo talvez um reumatismo, talvez uma artrose, e as drogas já me deixam alterado para não sentir dor. No anonimato que levará a muita especulação, fico com meu BBB particular, significando um quase Bertoldo - não o Brecht - que dá nome à árvore do sobrenome daquele a colocar o xará em seu devido lugar (à direita, por óbvio); o Barreto, meu Lima escritor, crítico do início do período republicano brasileiro, de quem estou sempre à busca de inéditos e éditos; e o batráquio de que já foi chamado o líder político. Pronto! Guardando meus segredos literalmente na pedra, que República não seja apenas nome de praça e de estação de metrô.
O descuido da linguagem revela triste pobreza mental: importa o que se diz, mas importa igualmente como se diz. (PSViana)
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