Semana quente

O calorão em Campinas está mais intenso do que o da praia. Ao menos meu termostato de meia-idade assim indica. Não fossem os inúmeros buracos no asfalto em minha rua, daria para fritar ovos ali, segundo dizem. Falta asfalto decente, mas não falta corte de árvores, uma vez que a prefeitura se refina em dizer pomposamente que está subtraindo centenas - sim, centenas - de espécimes condenados ou em risco para a população. O risco maior não seria a falta de sombra e excesso de temperatura? Fato é que cortes são vistos, replantio, nenhum. Mas não devemos reclamar, o país é tropical e estamos adaptados a tal situação, certo? Meu suado corpo tende a discordar, tentando encontrar algum sofisma nas frases anteriores para refutá-lo científica e filosoficamente. O ventilador da sala assusta a gata, então as leituras&escritas de fim de férias se dão com toalha no ombro e água à mão, para o devido balanço de líquidos que entram e saem. Tudo para não molhar as páginas a serem lidas: o papel depositário de todo o conhecimento é sensível à umidade, lembremos.

A Califórnia também arde, desta vez com incêndios mais intensos, devido à seca pronunciada. Os registros históricos mostram incêndios ocasionais até os anos 1990. Em 1991 ocorreram os mais destrutivos naquele estado e, desde então, a frequência e velocidade de espalhamento do fogo têm aumentando, particularmente de 2020 para cá. Especialistas fazem uma ligação direta com as mudanças climáticas extremas, mas Donald Trump, em seu discurso de posse, apenas lamentou os ricos que morreram e que perderam suas casas, colocando fim ao avanço de políticas ambientais nos últimos anos. Naquele mesmo dia da posse, ou reposse, ou ressaca, foi o aniversário de Euclydes da Cunha. Não havia atentado para o fato de as datas sempre coincidirem a cada quatro anos, desde que a democracia no norte se mantenha. Fiz um paralelo entre esses dois personagens históricos para A Tribuna Piracicabana, exercitando a palestra que farei na Academia Campinense de Letras, no próximo dia 30 de janeiro, às 19h30, com título "Além de Os Sertões: os textos críticos e analíticos de Euclydes da Cunha". O tema é inspirado no trabalho do pesquisador Felipe Rissato, mostrado em entrevista para este canal do youtube: https://www.youtube.com/watch?v=b2y3DcVjJIs.

Dos Estados Unidos vieram também boas novas. A consagração de Ainda estou aqui, uma produção brasileira foi indicada ao Oscar de melhor filme! É a primeira vez, em quase um século de existência do prêmio. Além disso, emplacou as indicações de melhor filme estrangeiro e de melhor atriz para Fernanda Torres, já consagrada por ganhar o Globo de Ouro deste ano. Fernanda Torres tem dado entrevistas muito doces, sérias e comprometidas com a importância e a grandeza que a história de Eunice Paiva representa. Esse conjunto de indicações é expressiva premiação, pois não se trata de futebol, em que apenas o campeão é valorizado e todos os demais são perdedores. O cinema nacional vence e convence. Depois de muito tempo, terei motivos para comemorar o domingo de carnaval. O orgulho finalmente retorna à cultura nacional e as cores verde e amarela podem voltar a emoldurar algo além de criminosas patriotadas.

Comentários

  1. Me diga, blogueiro: qual o pior incêndio? O de Los Angeles ou o da Casa Branca, esta semana? Haja bombeiro! (PSViana)

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  2. Não é difícil plantar e cuidar de uma árvore. Como é que nós, seres tropicais, não entendemos nada de árvores e ainda pensamos que é a prefeitura quem deve fazer isso?

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  3. A mudança climática é evidente. Uma pena terem pessoas que acham que isto é invenção ou teoria da conspiração. O planeta pede socorro.

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