Jatos históricos

A semana começa com dia do livro infantil, passa pelo dos povos originários, segue com combate ao fascismo, chega ao de Tiradentes para terminar com o do "descobrimento" do Brasil. É isso mesmo? A ordem dos fatores altera, e muito, o produto histórico que é o que vivemos. No meio da festa é difícil identificar de onde vem o som, quantos estão dançando ou bebendo ou conversando ou mesmo os que estão alheios aos acontecimentos. Sem contar que tem muita gente ali trabalhando e não se divertindo. Assim aprendi a entender por que a contemporaneidade de vivenciar fatos históricos não leva todos os presentes a registrarem a mesma impressão. Por estar no foco dos acontecimentos, há a necessidade do distanciamento temporal para saber o que realmente aconteceu e, ainda mais, sob diversos pontos de vista. O incauto dirá que a verdade dele é a verdadeira porque os olhos que a terra há de comer assim viram. Não há traidor maior que nossos próprios olhos e a memória seletiva que registra impulsos modulados pela adrenalina em que foram gerados.

Inspirado pelo jato que sobrevoou minha casa, veio à memória a colega dos tempos universitários cujo pai fora famoso aviador de nossas Forças Aéreas. Naquele tempo, o distanciamento geográfico e social não permitia saber de maiores detalhes, ainda que eu, por uma sequência de outros acontecimentos, acabei por dar carona ao militar em viagem de Lorena a Campinas. Buscando no oráculo do google eis que encontro detalhes da vida daquela pessoa, suas horas de voo, missões de que participou, medalhas, honrarias e um longo etc, menos alguma ligação com minha ex-colega de turma. A curiosidade foi mais forte e encontrei o nome dela associado a uma tese da Unicamp e ali, somente ali, vi uma menção ao já falecido pai. Apenas o nome, não o currículo. Tal devaneio é alimentado pela leitura de "A vida por escrito", de Ruy Castro, em que ele dá dicas e contradicas de como fazer e não fazer uma biografia. Achei pretensioso demais o subtítulo "Ciência e arte da biografia", mas a leitura da obra é um deleite como são as biografias que o autor publicou. Saber da vida alheia torna-se elemento de escrita e história, não de fofoca, portanto.

Um jato pode ser lavado. Se a limpeza é feita em algum local específico, ele pode ser chamado de lava jato. Mas se a palavra passa a ter a conotação de algo rápido, então falta uma preposição. Lava a jato, como qualquer amante da língua pátria sabe, é a expressão correta. Sem a preposição, volta àquela que é específica para um tipo de propulsão ou então passa a significar algo imaginário. Talvez por isso tenha sido adotada em outros espaços tomados como límpidos de imediato, mas que revelaram grande sujeira, especialmente por parte de quem se autodeclarava limpador. Um pouco de crítica política é importante para que não se recorra a leituras superficiais dos fatos para estabelecer sua história. "Falsas controvérsias" é título de artigos publicados por aí e eu também contribuí com um: https://www.brasil247.com/blog/falsas-controversias.

Comentários

  1. Eis que mesmo a História passa a ser instrumento de poder e dominação. Por isso é tão necessária a multiplicidade de visão dos acontecimentos. E deixar que o tempo filtre a verdade. (Paulo S. Viana)

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