Vagalumes

Aprendi Eugenia Sereno com o saudoso professor Nelson Pesciotta. Em reuniões da Academia de Letras de Lorena, o falecido ex-presidente e fundador da Academia discorria sobre a escritora que sensibilizou grandes nomes da literatura de sua época, autora de livro único e ímpar, contando folclores seus para que passassem a ser de todos. Adquiri "O Pássaro da Escuridão" e confesso que li com parcimônia e dificuldade devido às construções inusitadas e muitas palavras inventadas lá contidas. Certa vez comentei com a também saudosa Irmã Olga de Sá que as palavras do pássaro da escuridão não eram acatadas por dicionários e vocabulários e ela em respondeu com essa expressão, que "eram palavras inventadas". Mas todas não são? Setembro contém mais essa efeméride, o nascimento de Benedita Pereira Rezende Graciotti, nome da escritora que adotou Eugênia Sereno como pseudônimo e nascida em São Bento do Sapucaí em 13 de setembro de 1913. Uma boa compilação sobre estudos de sua obra pode ser verificada aqui:http://dicionariodeexpressoespopulares.blogspot.com/2012/06/um-passaro-anunciador-de-epifanias.html. Um detalhe a mais é que o exemplar que garimpei em sebo pertenceu a um tio de uma ex-colega dos tempos de faculdade. Ela já pediu o livro; egoísta, não atendi. 

Surpreendeu-me nesta semana o lançamento da biografia de outra mulher icônica das artes brasileiras, Ruth de Souza, escrita por Ygor Kassab, que repete o mesmo epíteto no título atribuído a Eugenia Sereno: a menina dos vagalumes. Com ou sem hífen, em função das mudanças gramaticais da lei, na desmemória característica de nossa cultura, não vi alusão ao uso de expressão idêntica atribuída à escritora vale-paraibana. Posso estar limitando meu julgamento às impressões que recebi, mas deveria haver uma menção maior, mesmo porque estamos em época de resgate de muitas figuras femininas que compuseram nossa história cultural, tal como aconteceu com Carolina Maria de Jesus, cuja obra está sendo integralmente relançada na versão originalmente manuscrita, sem omissões e alteração do conteúdo. Pequeno lampejo de esquecimento, dirão, mas com tantas ausências de falas silenciadas, não faria mal um discurso sobre o detalhe, a coincidência. Lerei a biografia da atriz e voltarei a falar do assunto. 

Intermitências luminosas remetem às da morte, escritas por José Saramago ("As intermitências da morte", livro de 2005). A morte resolve parar de matar e causa enorme confusão. Maravilhoso livro, como é toda a obra de Saramago. Usei a alusão a "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (de 1991), também do escritor português, em abordagem mística sobre números, crenças e a figura do coisa-ruim em artigo no Correio Popular publicado nesta semana. A ausência de comentários lá no jornal pode ser indicativo de concordância, desprezo ou preparo de alguma contra-ofensiva. Ainda não sei. O texto pode ser lido na página do Facebook, como sempre (https://www.facebook.com/adilson.goncalves.9847/). O vagalume como alusão daquilo que oscila, que vai e vem, altos e baixos, é constante na expressão dos acontecimentos da vida. Assim é a vontade de que o momento atual de desesperança seja apenas o final de um inverno seco e sombrio que antecede a explosão de exuberância de uma primavera que se descortina. Devemos ser o jardineiro de nossas flores, que não nascerão sozinhas.

Comentários

  1. Oi Adilson, parabéns pela bela postagem.
    Muito enriquecedor! Aprendi mais um pouco sobre " as meninas dos vagalumes".
    Um grande abraço. Magda Helena

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  2. Excelente postagem! É preciso mesmo resgatar nossa memória.
    Cada postagem sua é um aprendizado para nós.

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  3. Acabo de ler "Olhos d' Água", de Conceição Evaristo, blogueiro. Estou impressionado com a força da literatura dessa mulher. Parece que estamos em ebulição nesse segmento, no nosso país, o que não deixa de surpreender - considerando o descaso pela cultura, nos meios governamentais. Bem que gostaria da sua avaliação, sempre judiciosa. Escrevi à editora Pallas, pedindo permissão para traduzir um dos contos do livro para o Esperanto. Será que consigo?

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