Segredos

Um cronista revelou em apresentação na Academia Campinense de Letras que escrevia, diariamente, seu material por temas de uma lista, alguns escolhidos por ele, outros impostos por quem pagava-lhe pelo espaço. Leio tais textos hoje, mas admiro-me com os do passado, parecendo que uma sociedade de menores nuances era mais fácil de ser comentada. Ou melhor, uma sociedade cujos nuances menos apareciam, já que o silêncio sempre foi marca de nossa cultura, de nossa história. Segredos revelados ou a revelar, fui mudando textos de lugar para emplacar em outros espaços aquilo que considero opinião balizada. Se o jornal x tem política editorial contrária ao enfrentamento, então que a revista y assim publique. Funciona bem em tempos de amplitude de veículos eletrônicos e a gentileza de fornecer os materiais sem custo. Balizas que nos delimitam, muitas necessárias para o convívio social. Aquelas usadas para estacionar também têm um papel importante, ao menos para tirar a carteira de habilitação, chamada em alguns lugares de carta de motorista, mesmo em tempos de mensagens eletrônicas sem o papel envelopado a ser transportado por um mensageiro, mais um portador de segredos.

Por falar em cronistas, lembremos de Machado de Assis, um dos maiores artistas da crônica, além, é claro, do romance, dos contos, dos poemas, enfim, da literatura completa. Seu falecimento ocorreu em um 29 de setembro, data do início desta postagem. Machado continua sendo uma ferramenta adequada para abrir cabeças. Confesso que mantenho em segredo algumas crônicas de um século atrás com suspeita de ter o Bruxo do Cosme Velho como autor e não tive condições de proceder à confirmação de autoria ou destinar a quem possa fazê-la. Por mais pseudônimos ou anonimato que o autor use, seu estilo passa a ser revelado, especialmente quando escreve muito. E como escreveu bastante, esse senhor Machado de Assis. De novo, puristas da análise literária dirão que se o autor não quis se revelar, manter-se em segredo, devemos respeitar-lhe a decisão e nada dele publicar. Ah, se o secretário de Proust ou os herdeiros de Kafka assim tivessem feito, que parte magnífica da literatura teria se perdido!

O calendário também me lembra dos 15 anos da queda do voo 1907 da Gol, na selva amazônica, matando todos os que estavam a bordo. Francisco Carlos Nart, carinhosamente chamado de Chico Nart, foi uma das vítimas. Há uma história secreta para se contar. Professor da USP, chefe de departamento, ele estava no Amazonas, avaliando cursos de pós-graduação, mas com o encerramento dos trabalhos, resolveu antecipar seu retorno a São Paulo, com escala no Rio de Janeiro, tomando aquele fatídico voo. Passado o tempo, acho que posso revelar que ele assinava, como chefe de departamento, uma solicitação de auxílio a projeto de pesquisa que me foi encaminhada para ser o avaliador da proposta. Assemelhava-se a uma mensagem triste de um passado recente ver aquela assinatura aposta no formulário, tempo em que tudo tramitava em papel. A memória não registrou o conteúdo ou a autoria do projeto, apenas a imagem do carimbo e firma. Segredos - leves, na essência - revelados neste dia que é dedicado ao portador ou à portadora de tais confissões. Sim, Secretário é isso.

Comentários

  1. O grande seĝredo é ler, blogueiro! Ler muito e bem!

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  2. Adilson, gosto muito de seus Parágrafos e com segredos, melhor ainda !
    Abraços da Magda Helena.

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