Cores e dissabores

Sete de setembro foi um excelente dia para assistir à televisão. O principal torneio de tênis dos Estados Unidos - o US Open - fez brilhar os olhos com tantas bolas bem jogadas, aceleração dos movimentos, efeitos incríveis com a raquete, enfim, aquilo que vale a pena para se admirar do sofá. E me perguntam sobre o jogo do Brasil com a Argentina dias antes e respondo que foi, sim, meio morno, mas ganhamos de 3 a 1, conquistando, mais uma vez, o título sulamericano masculino. No vôlei, esporte que me digno a assistir, é assim vitorioso, pois, independente das admirações e confissões criminosas de muitos jogadores, a soberania continental é nossa. Para não dizer que não falei de cores e de esportes sem bola, o encerramento das paralimpíadas com as maratonas em diversas modalidades foi dinâmico e instrutivo. Aprendi que narradores continuam manifestando preconceitos e ideias erroneamente formadas, mesmo em evento que enaltece a diferença. O australiano Jaryd Clifford, deficiente visual, corria com seu guia. Num determinado momento, o narrador viu, de costas, o guia de cabelos compridos e imediatamente disse se tratar de uma mulher. Entabulou uma discussão sobre a ausência feminina nessa posição devido à diferença de desempenho na corrida, mas não corrigiu o grave erro. Vemos quais cores ainda temos para nossa sociedade tão diversa.

Até meu caderninho de anotações inusitadas foi colocado em dia no feriado. Pelo menos foram passados a limpo escritos perdidos por aí desde o início - e ainda longe do término - da pandemia. A vontade é maior que o tempo para escrever e sobressai o dissabor com ideias e fatos vivenciados não registrados. Sonhos, esses sim parecem ter um lugar especial nas linhas, inusitados que são, inexplicáveis por natureza. Quer dizer, Freud até explica, mas ele não está sempre comigo para ajudar. Deixo os sonhos para o subconsciente porque o pesadelo da realidade já é distópico o suficiente. Mantenho um caderno de rascunho para esses sustos e inspirações ininterruptas, caderno que já foi bloco de anotações, papel de embrulho e até papel higiênico, quando a vontade superou a busca pela melhor celulose. Outro caderno mais estável, robusto, de capa dura, é aquele para onde vai - ou deveria ir - o fato já maturado, analisado, composto. Engano-me e buracos e vazios compõem as folhas mais do que material escrito, feito a matéria e sua natureza espacial. Não chega a ser energia, feito a luz das cores, é apenas ausência de massa literária (ou seria literal?).  

A bola é amarela em quadra azul do tênis e a outra bola de interesse, a de vôlei, é mesclada de amarelo e azul em piso alaranjado. Ambas já foram brancas. Contrastes de cores facilitam a apresentação no esporte. Em outras esferas, fazem sua representação, com forte significado. Talvez isso seja o preponderante nas cores de nossa bandeira, maltratada e mal utilizada, é verdade. O original remonta ao tempo do Império, com as cores das casas que formaram aquelas famílias que avocavam o direito de tudo ter e tudo ser. O povo levado a uma nova estrutura de poder, sem dele participar, teve de aceitar as cores e o formato. Um país de admiração é a Austrália, por usar cores da acácia, árvore ali abundante, curiosamente o mesmo verde-e-amarelo nosso, ao invés das presentes na bandeira, uma cópia da britânica. Um contundente protesto contra a dominação de outrora e valorizar as cores nativas. Talvez façamos o mesmo, quando vemos na mesma tv dos esportes, um povaréu misógino e anacrônico vilipendiando as nossas cores para defender crimes e criminosos. Imaginemos um mundo melhor; podemos, se quisermos. Inspirados pelos australianos, podemos resgatar as cores mais usadas pelos indígenas aqui, o preto, o branco e o vermelho. Faria mais sentido, uma vez que o próprio nome de nosso país vem da árvore fornecedora do pigmento cor de sangue. A cor da brasa que queima levou ao Brasil, que arde.

Comentários

  1. Não sei em país você passou o 7 de setembro e trocar nossa cores pela cor de sangue não deve ser sonho do seu sub consciente, mas fruto de um inconssiente profundo.

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  2. A bandeira da Austrália é azul, branco e vermelho, e no canto superior esquerdo leva o Union Jack, pavilhão do Reino Unido a cuja comunidade de 14 outros países soberanos os australianos por sufrágio recente optaram permanecer associados tendo o mesmo chefe de estado no que se adiantaram a algumas outras nações de outras culturas e etnias - tais como a lusófona Angola - que hoje fortemente pleiteiam direito de entrada na cominidade maior da British Commonwealth of Nations que soma, em diferentes graus de associação, 54 paises.. O Canadá bilngüe e binacional, igualmente associado à mesma comunidade e rendo, como a Austrália, o mesmo chefe de estado por sufrágio de idêntica natureza, tem bandeira vermelho e branco, ostentando a Maple Leaf
    - símbolo nacional de forte laço afetivo - ( maple é bordo em portugues) no centro do campo .

    Não conheço nenhuma bandeira que tenha por simbolo - ou cores exclusivas - a acácia .

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  3. Boa idéia... Mudar as cores vilipendiadas de nossa bandeira. A cor de sangue da árvore Brasil, está sendo extinta, tanto quanto nossas florestas, exatamente pelos patriotas Verde Amarelos. Nada sobrará do branco ou do orucum, vermelho. Só restará o preto, este luto inglório.

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  4. Meu caderno de rascunho contém sonhos e realidade. O de capa dura está bem mais vazio, porque com a idade a autocensura cresce.
    Mais uma vez, três belos parágrafos!

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  5. A atual bandeira do Brasil foi desenhada - às pressas, é verdade - junto com muitas mais propostas para o que seria o pavilhão da República (sic) recém ' proclamada' . Foi feito um concurso público para escolher definitivamente aquela que seria a bandeira do país. Foi escolhida a que temos hoje, independente de seus méritos estéticos. O simbolismo das cores foi ressignificado em boa fé e,no meu ver, poética afetividade: o verde das matas, o ouro das riquezas, a azul e branco do céu, nuvens e estrelas. Os outros modelos apresentados foram esquecidos ou re-aproveitados como na bandeira do estado de São Paulo, em que o preto, branco e amarelo representam - para a sensibilidade da época - as nossas três raças. E o mapa do Brasil permaneceu como ícone significante de nosso principio fundador: a inteireza do Brasil como estado, resistindo a uma outra vertente de opinião que propunha o mapa de São Paulo nessa mesma posição.
    Foi portanto uma escolha pública, efetuada mediante concurso, numa epoca cujos meios de comunicaçao eram bem diferentes e mais escassos.

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