Escrevo e não me canso de ler
Ah, como escrever é bom! Prazer superado apenas pelo da leitura. Como não sei ler sem escrever, o caderninho, o bloco de anotações e, mais modernamente, o editor de texto digital me acompanham diuturnamente. Avesso a usar as margens de livros para apor pensamentos, dúvidas e reflexões, é na base do contato da caneta e do grafite com a celulose que os registros ficam. E não consigo ler um livro sem pensar sobre o que o autor está dizendo, suas contradições, omissões e, muito comum, seus erros. Não apenas os tipográficos, nem o 'não' proposital de Raimundo Silva, personagem de José Saramago em História do Cerco de Lisboa. Nesses dias me deparei com uma dessas questões na tradução de uma biografia - em inglês no original - que fala sobre um pó mágico, de pirlimpimpim. Tenho como certo que a criação de Monteiro Lobato não foi a citada ou mesmo era conhecida pelo biografado, ainda que contemporâneos. Eis um sério problema que é mais crítico na poesia, já intraduzível a partir do sentimento do poeta, segue apenas transmutada quando versada para outra língua. E Paulo Viana, leitor assíduo deste blog, meu confrade na Academia de Letras de Lorena, tem a magia de plasmar seus versos em português e em esperanto! O blog dele é citado aí ao lado, em algum lugar, mas repito o link aqui: http://blogdopaulosergioviana.blogspot.com/ .
A leitura dos pronunciamentos políticos, especialmente nos dois primeiros dias de fevereiro no Parlamento brasileiro, não dá a dimensão da agressividade da voz do orador, nem dos perdigotos lançados, pausas providencias e goles de água tomados. Assisti a eles nas sessões preparatórias para as eleições de presidentes e li depois as transcrições taquigráficas. Tivessem a força das palavras nos merecidos ataques quando das eleições para não deixar o caos imperar, talvez não seriam mais necessárias essas idas cenográficas ao púlpito para pantomimas de discursos. O jovem que outro dia vociferava contra a legitimamente eleita, hoje, não consegue assumir que foi parte da culpa dos golpes que nos levaram até aqui. Cabe-nos apenas registrar as palavras, renegadas pelos autores que votaram com legítimas cédulas de papel (de 200 reais, provavelmente). Confesso que um pouco de desânimo causou após tal leitura póstuma.
Escrevo poesia a partir dos comentários de outros poemas, crônicas a partir de rascunhos perdidos em folhas soltas. Exercício dos mais eficientes possíveis, e entendo quando o profissional das letras insiste que o melhor remédio contra a falta de inspiração é castigar o teclado, como agora faço. A escrita jornalística é a mais afeita ao imediatismo, dado o malfadado prazo, e necessita dos espaços para sobreviver. Em Campinas vivenciamos as agruras dos profissionais do Correio Popular que, estando em greve, tiveram suas funções substituídas por outros para que o jornal continuasse a ser editado e impresso. Um novo grupo administrativo assumiu a empresa. Controvérsias éticas e jurídicas em curso, fato é que a linha editorial mudou e melhorou. Buscam ainda um caminho próprio, uma diagramação expressiva, o equilíbrio dos espaços, com exageros nas colunas sociais, dobradas agora. Rio Claro, uma cidade com um sexto da população de Campinas, mantém dois jornais diários impressos os quais, de meu conhecimento, não possuem tantos problemas trabalhistas e administrativos como o único representante da Cidade das Andorinhas. Artigo meu de opinião continua na fila para publicação, outro foi publicado na transição editorial. Espaços diários de escrita e de leitura a serem preservados, pois.
Muita honra para mim a citação neste blog cheio de conteúdo e de estímulo mental a quem lê!
ResponderExcluirEsse texto me fez lembrar de que toda produção escrita é influenciada de certa forma pelas leituras feitas anteriormente pelo escritor, por mais que a ideia do escritor seja original e inspirada em sua própria vida as leituras anteriores estão presentes no modo de escrever e até mesmo na forma como o escritor enxerga o mundo.
ResponderExcluirCaro amigo:
ResponderExcluirLi e como sempre, gostei muito, apesar de não me achar á altura de seus conhecimentos. Gostei tb da citação da língua esperanto.