De janeiro em janeiro
Mais um janeiro que se vai. Nas minhas contas, foram 58 desses meses pelos quais passei. Em alguns brinquei, em outros viajei, houve aqueles em que trabalhei vendendo sorvetes, bilhetes de loteria e jornais. Em todos esses janeiros, a partir dos 6-7 anos, eu li algo, leituras necessárias quando estava estudando para o único vestibular pelo qual passei ou, com mais frequência, para adquirir a beleza da convivência literária com outros mundos. Foram alguns janeiros com acontecimentos trágicos, com apreensão política e outros dissabores, mas, em todos, com certeza, vivi. O início de janeiro trouxe um aniversário interessante, completando 18 anos. A skatista Rayssa Leal tem se tornado um exemplo para todos nós, mesmo os mais vividos. Que encare a maioridade com a leveza que demonstra nas pistas com suas manobras radicais. E que o sucesso não degenere nem a esportista nem a mulher em que se transformou, como acontece com vários - ousaria dizer a maioria - que alcança a fama.
A leitura não se limita aos mundos criados, mas também aos narrados. Dizem que não se discute política, esporte e religião. Ou melhor, que não deveriam ser discutidos. Quem assim afirma é quem não quer ver a pluralidade de opiniões aflorar, ou por acreditar que basta a opinião que já possui, ou, mais ardilosamente, que não quer ver os mais submissos descobrirem que outras possibilidades sociais existem. Discutamos, mas tentando fugir dos lugares-comuns e da esterilidade simplificante. Nas páginas jornalísticas, por exemplo, futebol é esporte único, política partidária é a exclusiva manifestação social, pois praticamente não há notícias sobre colegiados, conselhos, coletivos, grupos de discussão política e por aí vai, que refletem a política verdadeira a que todos estamos indubitavelmente submetidos por seres humanos que somos (mesmo os de práticas desumanas). A religião parece ser somente aquela que possui um humano no lugar de um deus. Humano que pode ser chamado de padre, pastor, guru, rabino, imã, messias, ídolo, coach, influencer e várias outras denominações, todas nocivas, todas causadores de graves e cegas dependências. Religião deixou de ser a ligação ou religação entre o existente mundo material e um suposto imaterial, espiritual. Existente ou não, seria para trazer alívio à consciência dos crédulos, não para torná-los fiéis seguidores da insanidade.
Dentre as leituras, verifiquei e meu nome não consta das milhares de páginas dos arquivos de Jeffrey Epstein. Os poucos Gonçalves que lá aparecem são desconhecidos para mim. O mesmo alívio não pode ser sentido por políticos e figuras públicas de vários naipes. Alguns estão se prontificando a dar depoimentos para esclarecer tal constrangimento, outros relutam em admitir a pouca vergonha criminosa em que se envolveram. Políticos daqui, soltos ou presos, também constam dos arquivos, apesar de a proximidade com Daniel Vorcaro de todos eles ser muito mais preocupante. Antes, algumas conexões eram limitadas a círculos políticos e econômicos restritos, talvez pelo menor acesso à informação de qualidade. Hoje, há um pentagrama interessante que liga Vorcaro, ao banco Master, ao STF, à igreja Lagoinha, ao INSS. Uns já são conhecidos, outros, ocultados pela benção de mãos estendidas aos céus visando o bolso de congregados. E isso tudo porque mal saímos de janeiro, adentrando o mês do Carnaval em que tudo pode, tudo passa.
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