Bailam as máscaras

O Carnaval adentra o calendário em ano insólito em que muita coisa já aconteceu antes da data festiva. Desta vez, política, economia, invasão de país vizinho, prêmios, escândalos financeiros e jurídicos, ameaças de guerras, discussão química relacionada a intoxicação e morte, e muitos outros fatos foram registrados nas primeiras seis semanas do ano. Uma máscara de figura ilibada cai, outra de isenção jornalística também. Todos vestem as máscaras de que são santos e os demoníacos penduricalhos salariais insistem em não cair. Samba está no pé e dinheiro é jogado pela janela de prédio localizado em cidade que está ficando famosa por seu endireitamento (ou endinheiramento, seu quase sinônimo?). Evolução na avenida até acontece, mesmo com todos os buracos e pontos de inundação com as chuvas que possuem nome e sobrenome do prefeito, apenas para carinhosamente lembrar da harmonia em (des)construção. O enredo é sabido e se repete ano após ano, usando palavras similares a outras que já tiveram conotação mais nobre.

As palavras lutam por manter seu significado justo e claro, independente do samba-enredo, soneto, conto, testamento, romance, receita ou reza em que estejam. Nem sempre assim as tratamos, no entanto. Vimos isso na mensagem "luto pelo assassinato da professora", mais uma das mortes educacionais que estão acontecendo. A figura gramatical pode ser usada como ironia, mas nesse caso foi distração. O luto deveria ter sido dito pela professora, assassinada. Da forma como ficou, a troca do substantivo pelo verbo é quase automática e parece que se enaltece o assassinato. Na trova, 'como' é proibido. Ou quase. A dubiedade entre o advérbio e o verbo é gritante, uma máscara cheia de malícias. Ao sol como carne em brasa. O verso não explica se a carne está em brasa, se estou comendo a carne sob o sol ou se é metáfora para dizer que está quente e a carne (pele) está ardendo. O tom poético é o da metáfora, mais apropriado para um verso trovadoresco. Então os especialistas pedem para trocar o como por tal qual ou equivalente ou criar um pouco mais para dizer o quão ardente está sua carne, aflorando outros desejos que não sejam a relação térmica entre pele e sol. A máscara verbal tanto protege quanto esconde.

De minhas fantasias destes dias de suposto descanso, resgato as efemérides próximas e que deveriam ser mais significativas do que a elas dão o devido valor. O 11 de fevereiro é marcado como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, criado para estimular um maior e melhor equilíbrio de gênero em área que, de forma geral, possui maior presença masculina. Significativamente o Dia de Darwin foi no 12, quase véspera deste Carnaval.  Neste 13 de fevereiro registramos os 49 anos da morte de Carolina Maria de Jesus, como bem nos lembra José Antônio Bittencourt Ferraz em seu maravilhoso blog (https://lorenafilatelia.blogspot.com/2026/02/carolina-maria-de-jesus.html). E, para não dizer que não falei de amores, esta postagem do Blog é finalizada também nesta sexta-feira, 13, o número da sorte, para ser feliz sem medo.

Comentários

  1. Muito bom !
    Ótimos parágrafos!
    Uma boa lição para não usar "como" nas trovas.
    Magda Helena


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  2. É isso, dia 13, e demorei pra me tocar que era sexta. Me toquei antes que é aniver de uma amiga querida... Mas indo ao que interessa, estamos nas mãos do Kassab. Se ele colocar lenha na fogueira, pode ser que a terceira via emplaque. Pena que isso não é muito a cara dele... Valeu!

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