Fome de palavras poéticas

Pegando carona neste Dia do Poeta, vai uma pitada de cultura literária com um toque de provocação e antecipação neste link: https://port.pravda.ru/sociedade/53673-literatura_arte_lingua_portuguesa/. A previsão não foi confirmada, não há de ser nada, e o importante é a notícia do Prêmio Camões deste ano ser dado à escritora moçambicana Paulina Chiziane. Também pouco conhecida no Brasil é uma das pioneiras da literatura em seu país. Como sempre acontece, a partir de agora deverão sair novas edições brasileiras e aumentar a popularização dessa autora que fala muito da condição da mulher africana. Saindo de nossas bolhas, pouco sabemos do que é produzido culturalmente, até mesmo em nossa própria língua, ainda que do outro lado do oceano. Há que se ter poesia para o dia-a-dia, noite e dia. Fingidor de suas dores, o poeta quer apenas amores... ou a penas quer amores? O rigor de nossa língua portuguesa - aquela que está sendo premiada - deve ter espaços para escapadas dessas e brincar com uma inversão e um espaçozinho para criar parônimos, as benditas palavras semelhantes que pululam nosso idioma. Somos todos poetas, de versos escritos ou vividos.

São nas palavras e ações que seguem os crimes e também as omissões. A CPI da pandemia no Senado Federal chega a termo, com relatório final lido e algumas considerações foram feitas em nosso Boletim Anti-Covid (https://sites.google.com/unesp.br/boletim-anti-covid-19/). Para além das conclusões e possíveis processos que dali resultem, a sociedade brasileira continua seus embates de sobrevivência. A fome de um lado, os criminosos, de outro. Se o genocídio não pôde ser devidamente tipificado, o racismo continua a ser crime inafiançável e imprescritível; dar espaço para sua apologia não é atitude republicana. Já fiz uma breve consideração em relação ao que a Folha de S. Paulo tem publicado, mantendo tais criminosos dentre os articulistas (https://www.brasil247.com/blog/ainda-o-racismo-na-folha), e sigamos com outras questões. A fome em contraste com nossa altíssima produção agrícola é angustiante. Em O Regional, de São Pedro, mantenho a coluna "Engenho e Arte" e neste mês sairá alguma reflexão nesse sentido (https://oregionalonline.com.br/). Não podemos ficar somente nas palavras, ingratas e indigestas.

Uriel Villas Boas era sindicalista e militante político na Baixada Santista. Não o conhecia, apenas ocupávamos as seções de cartas de leitores de jornais e revistas. A coincidência recorrente de nossos nomes em tais espaços fazia-me buscar o comentário dele junto ao meu. Sua formação jornalística elevava essa produção epistolar, muito superior à minha. Ele faleceu no último fim-de-semana e uma carta sua havia sido publicada na ante-véspera. Temos fome de palavras e os registros dessas opiniões ficarão. Habitarmos os mesmos espaços - físicos ou virtuais - não significa em tudo concordar. As ideias são ali multiplicadas, ou deveriam ser, de forma a aprimorar nossos pontos de vista, mesmo que instiguem a encontrarmos argumentos ainda mais robustos para defender a nossa posição. Se falta poesia, falta também debate.

Comentários

  1. Parabéns para os Três Parágrafos, em especial , hoje , para o primeiro parágrafo que homenageia os poetas e a poesia.
    Magda Helena

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  2. Adilson, sua capacidade de “costurar” 3 parágrafos com assuntos diferentes, mas que de algum modo se ligam entre si, é invejável! Na realidade, não é costura, é um verdadeiro tecer. Que bom para nós, seus leitores, que você tenha fome de palavras!

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