Encontros e circunstâncias
Os acontecimentos corriqueiros formam a base para boas crônicas, para quem as sabe fazer (alguns cronistas aqui: https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2026/07/cronistas.html). Alguns são simples relatos cotidianos, outros, inverossímeis, inacreditáveis ou mesmo engraçados. Contar o bom conto é que aumenta a conta do contista, caso ele seja remunerado para tanto. Consideremos, no entanto, que o preço cobrado seja apenas o da satisfação do binômio escrita-leitura, nada mais. Contar sempre a mesma anedota torna o comediante previsível; os causos repetidos perdem a aura; o pitoresco pode virar lugar-comum. As efemérides que sustentam vários desses relatos também podem irritar o leitor e, por isso, é melhor deixá-las com quem sabe tratar de vinculá-las a algo mais permanente que o relato raso do fato. É o que faz, dito e repito, o confrade da Academia de Letras de Lorena, José Antônio Bittencourt Ferraz, em seu blog que combina a arte do colecionismo de selos, cédulas e moedas com os acontecimentos e personagens que constituem nossa história. Nossa vida, portanto. Após o café matinal para injetar ânimo nos neurônios, é a primeira leitura do dia: https://lorenafilatelia.blogspot.com/.
Assim, com a devida vênia a quem melhor sabe e relata, dois acontecimentos da semana passada tocaram-me a memória para reflexões difusas. Bem, no caso humano, reflexão difusa deveria ser quase um pleonasmo, pois, pensante que somos, a partir de novas constatações e diálogos, o objeto refletido adquire nova imagem. Triste é ser pobre de ideias e ideais, ou, quando os ter, torná-los imutáveis. No Dia dos Avós lembrei da vida sofrida das quatro pessoas que transmitiram seus cromossomos e experiências de vida até mim, três delas de famílias oriundas da Europa, e outra chamada de brasileiro devido à ancestralidade local e indefinida. A nuvem indefinida de saber de onde se vem toca fundo em questão mais que filosófica, uma vez que diz respeito à materialidade da existência. Redigi um pequeno comentário que a Folha de S. Paulo resolveu publicar naquele fim de semana. No dia anterior, comemorou-se o Dia do Escritor e voltei à lembrança uma reflexão que já fiz e fui criticado por um ou outro escritor profissional (assim eles se chamam): somos todos escritores, uns com livros publicados, outros com livros em construção, mas todos como livros vividos.
Inspirado pela leitura de O drible, de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras, 2013), plasmei um dos parágrafos de meu blog, congelando e descrevendo a imagem de um ataque no vôlei, por óbvio, longe do futebol, objeto daquele escritor (https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2026/07/a-plastica-poetica-do-volei.html). Relatei a ele tal ousadia pelo Instagram. A resposta, inesperada do escritor e cronista, foi de cumprimentos, completando com "Obrigado, caro Adilson. Parabéns pelo texto. Narrar o esporte em câmera lenta é um grande barato, não é? Admira que mais escritores não se deem conta disso". Há momentos e circunstâncias que precisam ser pausadas, retornadas, aceleradas, congeladas para uma melhor descrição e entendimento. Não apenas os lances esportivos. Assim, fiz a leitura do trecho que relatava o quase gol de Pelé, constante do referido livro, na Ciranda Literária da Biblioteca Municipal Zink, conhecida por todos como Sarau do Batata, coincidente com o Dia do Escritor e do lançamento do livro ‘Escrita, expressão da alma’, produzido pelo Coletivo Escreviventes Rosa dos Ventos, organizado por Débora Baracho e Luísa Milano Navarro, e editado pela Nirlei Maria Oliveira, que foi bibliotecária no IFSP câmpus Hortolândia, onde trabalhei por nove meses. Um feliz encontro.
Grata, Adilson, por mais esse texto breve mas, como dempre consistente!
ResponderExcluirUma amiga comum, escritora, Trovadora, poeta, mandou-me o link para eu ler seu texto, li, parei, chacoalhei a cabeça, três ou quatro parafusos fizeram a sinfonia, percebi que preciso crescer um pouco mais. Aplauso.
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