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Mostrando postagens de agosto, 2026

Sem som ao redor

O pequeno veículo automotor de duas rodas já foi chamado de Vespa e de Lambreta, e aparece silente ao lado do carro. Apenas a sensação de uma sombra pelo retrovisor deu o alerta de que algo se aproximava pela via. Creio que não são classificados como motocicletas e esses novos modelos de transporte individual, ainda que aquele em particular estivesse levando uma criança na garupa, são considerados ambientalmente corretos por serem movidos a motor elétrico. Por não terem um motor de explosão interna, são muito silenciosos. Tão silenciosos a ponto de não serem percebidos. Ganha o ambiente, perde a segurança. A prática de cruzar pelas ruas - agora é o pedestre falando -, cuidando apenas do que os ouvidos acusam para saber se vêm ou não veículos, já não é funcional. Atropelamento e fuga no silêncio da alvorada. Daria um bom título poético para uma reflexão boba, mas já se torna realidade em centros urbanos. Longe de ser contra o avanço tecnológico da melhor opção de transporte, e, ao que t...

Crivos e cravos

Escrever deveria ser escrito ex-cravar. Cravar possui várias conotações e uma delas é acertar com precisão (na verdade, o correto é acertar com exatidão, para ficarmos no conceito estatístico mais comezinho). Se o sentido é o de acertar, escrita é erro, daí ex-cravar, não cravar. Talvez tenha sido acerto em algum momento de sua elaboração, mas não é mais. Dos papiros fidedignos à falta de memória às escrevivências de Conceição Evaristo, o processo de registro de palavras e frases a partir do contato do grafite com a celulose é mentiroso. A testemunha ocular do fato é míope - se não cega -, uma vez que, se já é difícil registrar nos meios intestinos o que vai em curso no mundo, o que se dirá daquilo que é fruto de interpretação, da ação do intelecto? Melhor é manter o escrito no ex-crivo da falsidade e aceitar que a melhor literatura continua sendo o retrato da realidade porque ela, a dita realidade, só existe como conceito teórico. Em verdade, escrevemos o que lemos e por isso, em vári...

Aprendemos a adoecer

Ipês rosas já colorem praças e beiras de estradas. Apressados, empurrados pelo clima mutante que nos açoita há tempos, florem majestosamente com recados temporais incômodos. Mudamos as regras sem ter mudado o jogo ambiental. Parece que estamos perdendo, uma vez que, para o universo, tanto faz para onde irão os átomos que nos compõem após uma possível tragédia que aconteça com nossa existência. Seres humanos pensantes que somos, pensamos que somos muito importantes. O pensamento vira autoengano, digno até da sobrevivência, mas não da opulência composta por tantos neurônios e circuitos elétricos interligados. O susto climático já está absorvido pela rotina, mas assusta de forma ampliada quando especialistas da área declaram que passamos do ponto de retorno e, agora, cabe investirmos não mais em reverter o aquecimento global e outros danos ambientais, mas, sim, a aprendermos a viver e conviver em um novo mundo mais quente e mais instável. Um mundo ambientalmente doente. Talvez não seja o ...