Vida, vida

Após o sobrevoo na Lua, a sensação espacial da semana foi a descoberta feita por um dos robôs que estão em Marte. Segundo as manchetes alvissareiras dos principais jornais, Marte já foi habitável. Bem, a descoberta de moléculas complexas no solo marciano - esse foi o feito - pode também significar que elas foram lá levadas por meteoros ou mesmo que houve um complicado e longo processo de biogênese a partir de minerais que resultou nas substâncias orgânicas mais complexas. Outras moléculas mais simples já haviam sido identificadas. A conclusão sobre a origem desses compostos ainda é especulativa e apenas poderá ser confirmada com análises detalhadas, a serem feitas aqui na Terra. Portanto, missões ao Planeta Vermelho são fundamentais para entendermos um pouco mais sobre a origem do Sistema Solar e da vida, mesmo que os custos sejam enormes. Tirar qualquer corpo da gravidade terrestre demanda muita energia, muito mais do que o levantar da cadeira. De qualquer forma, vale a pena ler o artigo original para dirimir dúvidas científicas, ainda que seja, digamos, indigesto para quem não tem a formação na área química (o artigo pode ser consultado no site da Nature Communicationshttps://www.nature.com/articles/s41467-026-70656-0).

Queremos descobrir a vida e semeamos a morte. Buscamos vida no espaço amplo ao mesmo tempo que ampliamos o espaço das guerras terrenas. Seremos os mesmos humanos que assim procedem? Os mesmos humanos que empreendem aventuras pelo universo para responder a uma das perguntas mais intrigantes da filosofia, e, talvez por isso, sem uma conclusão adequada? De onde viemos é a questão e as alternativas de múltiplas escolhas incluem tudo o que assim queiramos que seja a resposta. Eu vim do útero de minha mãe, isso é certo. Antes disso, houve uma união estável de gametas, incluindo a contribuição de meu pai. E antes disso? Sou pó das estrelas, isso eu também sei. E para onde vamos? Para a morte, isso é também fato, e, depois disso, devolverei ao universo os átomos que usei para aqui existir. Ponto final. Mas outros querem aceleram a chegada da morte, não para si, mas para o mundo todo. Paradoxalmente, fazemos guerras pelo vil metal e ouros negros que se acumulam aqui e ali e movem molas econômicas, fictícias em sua maioria. Lembremos que a termodinâmica do uso do petróleo e outros materiais é uma constante, enquanto seu preço varia com o tempo, as circunstâncias e o sangue por ele derramado.

Pode ser rara em outros mundo, mas aqui vida ainda é uma constante vibrante. Talvez nosso maior erro seja marcar a vida pelo tempo, outra grandeza cósmica de difícil explicação. Se tivéssemos uma forma de desvinculá-los, teríamos mais tempo para viver. Do tempo marcamos as datas, algo que é dito e redito de forma exaustiva neste espaço. As efemérides aconteciam antes mesmo de criarmos um calendário. Não sei se calendas e colendo tiveram em algum momento paralelismo etimológico, mas creio que a mudança de vogais é significativa para um dizer sobre a prisão do tempo e o outro, sobre algo admirável, venerável (ainda que limitado ao mundo jurídico). Mas, seguindo as datas, os cravos em revolução atestam que vermelho é o símbolo da vida e que nas flores estão as dores e os amores do viver. Na sequência da postagem passada, de cara, cobraram-me o compromisso de falar sobre o Dia Internacional da Terra, fixado no último dia 22 de abril, coincidente com o da chegada dos portugueses aqui. Um dia dedicado à vida, pois, por mais que procuremos alhures, a vida em abundância como a conhecemos só ocorre neste planeta. Por fim, meus parabéns à Terra das Palmeiras Imperiais! Viva Lorena (https://lorenafilatelia.blogspot.com/2026/04/parabens-lorena.html)!

Comentários

  1. Bom dia, Adilson. Sou o J. C. Paulista, assíduo leitor das suas postagens. Sempre lúcidas e necessárias as suas indagações, amigo. Simultaneamente, instigantes são elas com destino a novas fronteiras do conhecimento. E, de repente, o óbvio da vida se põe sobre a mesa: “tanto investimento para se buscar evidência de vida fora da Terra e tamanho desprezo, em vezes recorrentes, pela vida que existe em nosso planeta”. É mais um paradoxo que tende ao infinito.

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  2. Penso muito nos tempos de Chronos e de Kairós! Qto mais vivo os dias, concluo que desejo estar nos braços de Kairós!

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  3. Miriane de Almeida Fernandes26 de abril de 2026 às 10:18

    Não estamos sozinhos. Que bom!

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  4. Obrigada, Adilson! Mais uma vez, li com atenção sua crônica. Escreve com profundidade, não com *achômetros" superficiais. Isso, além de agradar ao leitor, traz conhecimento. Meu neto cursa Geologia na Unicamp, mandei para ele.
    Obrigada, é um articulista dos bons que somam conhecimento.
    Abraço

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  5. Lucidez e transparência nas informações... Sem "achômetros",
    Sem conceitos baseados em fé ou religiosidade. Opiniões claras e surpreendentes. Parabéns 🌹🌹🌹

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  6. Muito bom. Sempre um olhar lúcido e claro sobre nossa vida e nossas incoerências.

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