Postagens

Desfrutando

Adoro melancia. Junto com minha filha, somos capazes de devorar uma frutinha dessas de 15 kg em dois ou três dias. Coloco a descendente na equação, mas minha contribuição passa de 80%. Números que não traduzem o prazer de desfrutar o adocicado pedaço de melancia, com sua textura particular e quantidade exagerada de líquido. As sementes são sorvidas e cuspidas no prato, como deve ser. Escolher o exemplar da fruta batendo na casca para sentir se o som produzido é oco ou não e verificar que a parte remanescente do cabo está seco são procedimentos que funcionam em parte. E comprar quando a promoção coloca o quilograma abaixo de R$ 3. Mais que isso, o compromisso da degustação com o custo fica indigesto. Não vendem melancias por dúzia. Aliás, nem laranjas mais são vendidas por unidade, o "peso" virou a forma de medida, agora que abundam balanças por todo e qualquer estabelecimento comercial. As aspas são para me lembrar que cientificamente medimos a massa, pois peso é resultante d...

Bomba natalina

O frentista já sabe que eu não peço o comprovante do cartão, mas quero a nota fiscal impressa, sem o CPF, para depois doar os eventuais créditos do imposto que eu pago. Sim, o ICMS é imposto pago pelo consumidor e recolhido pelo empresário que vende o produto, parece que nos esquecemos desse princípio básico, dando a impressão que é o pobre do empresário quem "paga" a conta. Se ele sonega, aí fica pior, pois pagamos e ele embolsou o imposto. Mas naquele dia era um pouco mais tarde que o habitual e o movimento no posto estava menor, o que deu chance para o frentista reclamar de outro freguês, sistemático, que só abastecia em uma das bombas e ficava esperando em fila, mesmo que outras estivessem vazias. E não gostava que lhe perguntassem qual combustível e o quanto pôr: a regra era gasolina e encher o tanque. O franco frentista continuou a digressão ao narrar o dia em que o freguês veio reclamar que puseram gasolina ruim no tanque, o carro falhou, precisou chamar mecânico. Todo...

Saudáveis informações

Na espera do resultado cardíaco, aflige-me uma forte gripe. Desgraça, diz o ditado, vem a galope e acompanhada. Inimiga da solidão, a ruindade amealha companheiros pela jornada. Chás, líquidos leves, repouso e uma boa dose de corticoides já estão me colocando de volta, não que tivesse ficado parado: mesmo com vontade contrária, sói que o corpo dói. O coração físico vai a meia velocidade, acompanhando o amoroso, já que o tempo nos traz a idade e, com ela, o risco de ficarmos e termos fartos&infartos. Herdamos uma alimentação errada para os dias atuais, que era muito certa para outros dias em que a atividade física estava diretamente relacionada com a sobrevivência. Hoje nos esforçamos para impor alguma movimentação muscular que compense o que o cérebro arduamente treinado ao longo de milênios diz para o resto do corpo: acumule para não faltar. Da mesma forma que socialmente descobrimos que é na cooperação e não na competição que crescemos, e que o acúmulo de capital somente trouxe d...

Acadêmicos e cardíacos

A ansiedade foi substituída pela emoção. Participei de várias posses de Acadêmicos nas mais distintas instituições, ouvindo atentamente suas orações em homenagem aos antecessores e patronos, admirando-me com suas histórias de vida e analisando posturas, gestos, tamanho dos discursos para saber o que fazer quando chegasse a minha hora. Ela chegou. Na noite de 5 de dezembro, tomei posse da cadeira número 7 na Academia Campinense de Letras (ACL), juntamente com Ademir José da Silva, Maria Cristina de Oliveira e Marino Di Tella Ferreira. O patrono da cadeira é Euclydes da Cunha, o que é muito honroso, significativo e aumenta a responsabilidade por ser ele também o patrono da Academia de Letras de Lorena e objeto de estudos curiosos de minha parte, ao lado de Lima Barreto. Por ser uma cerimônia conjunta, o discurso de cada um foi abreviado, mas consegui fazer meus agradecimentos e homenagens aos que me antecederam nas duas páginas escritas. O site da ACL ( https://academiacampinensedeletras...

Escondidos e explícitos

O blog é exclusivo da palavra e as imagens ficam relegadas às redes sociais, álbuns, nuvens e outros locais. Assim, não foram postadas fotos da viagem a Praga. De qualquer forma, é cidade indicada para eventos, incluindo aquele do qual o meu colega Acadêmico Paulo Viana pretende participar. Um congresso de Esperanto em Praga será uma combinação de duas linguagens universais: a língua e a arte. Outra informação importante: o blog não é moderado para aceitar comentários e a maioria dos leitores entra como usuário anônimo, o que não me permite identificar a autoria. Alguns colocam o próprio nome ao final do comentário para se fazer conhecer, outros não. Agradeço pelos elogios que aqui são postados, as críticas até que são raras, mas os pedidos de envio de livros e outras informações ficam prejudicados por não conterem o remetente. Aproveitem a promoção do breque à fraude e enviem e-mail para mim se o objetivo for esse, tornando o desejo explícito. Se quiser continuar escondido, o segredo ...

É Praga!

A capital da República Tcheca é a mais barata para se viajar e fazer turismo, segundo avaliações seguras. Acabei de voltar de lá, participando de um congresso científico na área de química de polissacarídeos. Vida de cientista é assim: consegue turistar um pouco quando concilia o passeio com atividades profissionais. Sem mala despachada, devido ao preço, dormi em quarto que não era hotel, confortável, sentindo-me quase o mochileiro de décadas atrás. Quatro dias, suficientes para conhecer um pouco mais da ciência mundo afora, levantar ideias e comentários para minhas colunas nos jornais e adquirir cultura, a mais nobre das criações humanas. A gota não me permitiu desfrutar das excelentes cervejas locais. O alupurinol que combate o ácido úrico causa alergia, então resta-me o consolo do vinho. Muito bom vinho. O caminhar pela cidade é o melhor passeio, com ruas em arquitetura centenária e milenar formando um museu de coloridas paredes, janelas, portais, decorações, histórias. A cidade se ...

Observações

A motorista do Uber reclamou dos buracos de meu bairro. Uma região com altíssimo valor de IPTU, mas desprezada pela administração municipal. Dizem que é devido ao esclarecimento político dos moradores, que não compactuam com favoritismos ou fisiologismo dos mandatários e, não por menos, a região carrega o adjetivo universitária em seu nome. Eu duvido um pouco, ainda que nas últimas eleições os vencedores das urnas daqui se distinguiram dos que foram eleitos no município. A motorista foi categórica ao dizer que precisamos de um vereador, que brigará por recursos para melhorar a condição urbana do bairro. Afinal das contas, essa é a única utilidade do vereador, segundo a autônoma. Talvez por estarmos habituados ao favoritismo político, normalizando-o, esquecemos que a sociedade em harmonia é muito mais do que isso. Os recursos públicos deveriam ser aplicados em função do interesse coletivo e melhoria da urbanidade para todos, e não para os grupos que consigam impor sua influência por mei...

Cultura na lei e na prática

Em inglês, o verbo maquiar está relacionado a complementar - make up . O termo é usado em química quando há um componente que é adicionado a outro para completar um volume, por exemplo. Chamamos esse complemento de make up. O maquiar em nosso idioma está mais para disfarçar, em vários âmbitos da vida, incluindo as leis maquiadas. Difícil encontrar uma lei que não contenha um jabuti ou jabuticaba, com artigos ou outras partes estranhos ao objeto principal. Até uma singela lei que estabelece o Dia Nacional da Cultura, a 5 de novembro, em homenagem ao nascimento de Rui Barbosa (Lei 5.579/1970), contém um elemento intrigante, pois é para comemorar qualquer um que tenha nascido nessa data, não apenas Rui Barbosa. Somente no Facebook, tenho uma dezena de conexões que poderia avocar a homenagem. Na mesma data é o Dia Nacional da Língua Portuguesa, estabelecida por outro dispositivo legal (Lei 11.310/2006). Nacional porque há o dia mundial, a 5 de maio, e o dia da língua em Portugal, a 10 de j...

Saci daqui

O colonialismo cultural é importante para o estabelecimento de mercados, ideais, crenças e ideologias. Começa com a língua. Quantos no Brasil falam tupi ou o guarani? Um dia, a língua importante foi o grego, depois o latim, passou pelo francês e desembarcou no inglês. Mas se falar também o mandarim, terá o mundo a seus pés. Se por um lado não sabemos a principal produção literária de Burundi, país africano, por outro, não temos dúvidas em conhecer e enaltecer os clássicos gregos. Junto à cultura, vêm os preconceitos, pois uma das formas de impor visões de mundo é destruir outras. Certa vez em uma escola em que trabalhei, o professor de História disse que os "índios" (era esse o termo usado) não têm cultura... Devorar saberes, digeri-los e produzir outros seria um caminho mais palatável, menos beligerante. Porém, nem a dieta do Mediterrâneo é adequada para os trópicos, faltando juntar com os pães, vinhos e queijos, a baixa temperatura ambiente e o esforço físico na lavoura. Se...

Bruxas carecas

O tempo das bruxas se aproxima. Quero uma para mim! Não precisa surgir pilotando uma vassoura, como nos clássicos contos da literatura mágica. Caminhando pela rua seria suficiente. Um boa bruxa teria uma vassoura robusta, mas tal meio de transporte, claro, é fictício. Quer dizer, bruxa, vassoura, uma ou outra ou ambas, não existe, não existem. A vassoura-de-bruxa é também nome de infestação que dá nos cacaueiros. Isso remete a um interessante trabalho do pesquisador Paulo Teixeira, da USP, que estudou a imunidade de certas plantas ( https://www.youtube.com/watch?v=2m6R0AW7jYs ), umas que resistem a essa praga, e outras, não. Porém, seria importante relacionar o caso da vassoura-de-bruxa que infestou propositadamente os cacaueiros da Bahia décadas atrás, como sendo o primeiro caso de bioterrorismo exitoso em nosso país. E digo isso com as informações que tal contaminação proposital fora feita por grupos supostamente progressistas. Os vegetais, assim, dominam o espaço científico e tecnol...

Semânticas

Faltando 70 dias para o fim do ano, já descontando aqueles em que nada é feito, a lista dos afazeres continua bem maior do que a dos feitos. Queria tempo, bem mais tempo para ler, mas é a escrita que me resta como refúgio, diria o poeta. Mas o que escrever? Qual o significado do que se escreve? Sem entrar no drama das reflexões infinitas que não chegam a lugar algum, ainda que partindo de um ponto difuso, as homenagens poder ser o início desse processo de vencer a palavra e seus vários tons e acentos. Em menos de uma semana, coincidiram várias dessas homenagens de peso: dia das crianças, do professor e do médico. O feriado nem contou por ter caído num sábado. Começando pela criança que todos um dia formos, sim, voltaria no tempo para dizer para aquele outro - ou mesmo - eu: brinque mais, muito mais! E tente crescer sem assumir tantas responsabilidades. No plano fictício, tudo é possível, certo? No caso do professor, o significado do que ele seja é distinto, sobrecarregado que está por ...

Agridoces palavras

A palavra serve para alegrar ainda que alegria seja anagrama de alergia, com uma singela troca de letras. Joguinhos à parte, a atração pela literatura seria infinita, se fisicamente plausível, mas a imaginação nos dá a liberdade de poder ler tudo o que já foi escrito e pensado. Não apenas as alegrias, mas as insatisfações, dúvidas e não vou me alongar nos manjados substantivos e adjetivos que dizem o que é a literatura. De crônicas a romances, a literatura pode estar nos mais curtos versos escritos numa trova até nos poemas épicos. Ou na chamada prosa poética, premiada agora com o Nobel de Literatura para a sul-coreana Han Kang. Confesso que a única obra em coreano que possuo é um exemplar do Novo Testamento, de linda capa vermelha, que tomei emprestado por tempo indeterminado do hotel em que estive em Seul, muito tempo atrás. Empréstimo porque comuniquei ao atendente que estava levando o livro comigo. A expressão dele - ou falta de expressão - disse muito sobre o fato inusitado. É um ...

Idade das luzes

A eletricidade flui por condutores e diferentes materiais. Campos magnéticos já foram associados à magia e quando o cientista combinou tudo para mostrar que corrente elétrica, magnetismo, luzes e outras radiações estão todos correlacionados, causou espanto e decepção. E incredulidade, tanto é que muita gente hoje ainda fala em magnetismo pessoal, da luz que sai dos olhos, e levam choques elétricos domésticos pela simples falta de aterramento de fios. Há os que defendem a ilusão do Iluminismo, época do esclarecimento que resultou no melhor entendimento daquilo que somos, época que foi subvertida para hoje estarmos às escuras, especialmente com os que, de cabeça reluzente, querem nos convencer que são a modernidade. Uma das consequências do Iluminismo, além de saber um pouco mais da mecânica do mundo, foi a democracia moderna, revelando que somos muito mais iguais do que gostaríamos. Em decorrência do exercício pouco energético do voto - e esperamos também menos obscuro -, em alguns luga...

Machado e Clarice

Clarice Lispector, sempre ela, virou notícia internacional quando a atriz australiana Cate Blanchett a citou e a incorporou na cerimônia em que ganhou o prêmio Donostia pelo conjunto da obra, durante a 72ª edição do Festival de Cinema de San Sebastian, na Espanha. E não eram as frases soltas que circulam indiscriminadamente pela internet, muitas delas longe de serem de Clarice. No mesmo dia, foi noticiado um Machado de Assis revigorado pela Academia Brasileira de Letras, na forma de um mural inaugurado na sede da Instituição para comemorar os 185 de nascimento do Bruxo do Cosme Velho. A "tik-toker de leitura" - é assim que ela é chamada - Courtney Henning Novak, que ficou ainda mais famosa ao revelar sua paixão imediata por Memórias Póstumas de Brás Cubas , visitou o Brasil e o Museu da Língua Portuguesa neste mês. Neste blog constato que houve oito postagens citando Clarice e dezenove mencionando Machado de Assis. Influências explícitas, apenas isso. E ainda dizem que não te...

e-criada

As tecnologias da informação dão azo a muita coisa indesejada e artificial. Criação eletrônica tem sempre o dedo humano, ao menos até agora. Mas não é disso que se trata a reflexão aqui. E também não se pode pautar apenas pelo assunto mais falado da semana. O destaque é a ocupação de quatro cadeiras na Academia de Letras de Lorena na festa de 15 anos acontecida em 14 de setembro. Momento único, com apresentações musicais de produções autorais e regionais, junto com dança, a mais nobre expressão artística do movimento. Tenho reconhecidas dívidas com instituições de que participo, pois o tempo corre diferente quando a urgência se manifesta. Mas o carinho também é presente, e é isso que sinto pela Academia de Letras de Lorena. Sou um dos membros fundadores; dos 23 iniciais somos hoje apenas onze, uma vez que é facultado ao membro se desligar passando a remido ou emérito. Dois outros passarão à condição de remido a pedido. A imortalidade não tem prazo, mas tem peso e responsabilidades que ...

Escrito nos livros de História

A história é contada pelos vencedores, mas com o tempo, o lado dos perdedores passa a ser conhecido. Essa é a maravilha do trabalho do Historiador, buscando em arquivos e depoimentos a integridade dos fatos pretéritos. Com a Independência do Brasil não é diferente, pois muitas versões dão conta do que realmente aconteceu naquele 7 de setembro de 1822. Ou se o determinante histórico fora exatamente aquele dia ou os acontecimentos precedentes e com outros atores políticos. Se pelo lado da precisão histórica, os detalhes compõem o verdadeiro quadro - um pouco diferente da tela de Pedro Américo no Museu do Ipiranga -, do lado contemporâneo, são os fundamentos do que veio a ser chamado de país que passam a ter valor. O Historiador, cujo dia foi comemorado em 19 de agosto, se ocupa também desse mister. Mas foi bonito ver o povo indo aos desfiles em ato cívico com as autoridades que compõem os poderes constituídos do país. Infelizmente há os que não entendem a diferença entre democracia e gol...

Desafios

Mulher de malandro foi uma expressão pejorativa para representar a subserviência a quem era supostamente mais forte e poderoso por manter a posição subalterna tendo alguma vantagem. Grande equívoco, pois era a própria sobrevivência que estava em jogo e denunciar tais situações eram e são desafios constantes de suas vítimas. A situação é real e atual, o impróprio hoje - que torna a expressão inadequada - é atribuir tal submissão apenas à mulher, como se não houvesse gentes de todos os gêneros, sexos, cores e desilusões submetidas à submissão, chegando ao cúmulo de admirar criminosos internéticos somente porque possuem dinheiro. E dinheiro conseguido com os diamantes de sangue, é bom fazer o resgate histórico. Não se pode culpá-los, não todos. Alguns, sim. Por exemplo, os outros admiradores de criminosos que aplicam golpes em idosos e vulneráveis e insistem em se dizer paladinos da moral e dos bons costumes. Antes a palavra com correição causava admiração. Hoje, aversão. O desafio é conv...

Cores

Queima o país em incêndios criminosos. O lindo pôr do sol é retrato da poluição, o espectro de espalhamento da luz se expande porque partículas estão no ar, não o amor, como diz a letra da música de John Paul Young. E surgiu uma nova coloração vermelho alaranjada que estampou os céus, as capas de jornais e revistas e as apresentações televisivas. Bonito cenário, porém perigoso. Poucos são os fogos iniciados naturalmente, sim, porque raios que vêm da atmosfera existem, mas são raros. É o ato de riscar um palito de fósforo ou acender um isqueiro que está por trás de mais uma calamidade ambiental e respiratória. As cores, novamente eles, são fruto de transições eletrônicas, com partículas subatômicas excitadas pelo calor e devolvendo a energia obtida na forma de luzes. Sim, a química, a mais bela das ciências, tinha que estar presente. O fogo é tido e havido como elemento de limpeza e o que ele faz é transformar o exuberante verde e o colorido múltiplo de flores em cinzas, uma nefasta mes...

O velho e o novo sempre vêm

Uma senhora espanhola de 117 anos morreu. Era a pessoa mais idosa viva. Diferentemente dos esportes, o recorde de pessoa mais velha só pode ser ultrapassado com a morte! Viver demais não é competitivo. No Brasil, temos mais idosos do que jovens entre 15 e 24 anos, segundo os novos dados do IBGE, a partir do Censo de 2022. Passamos a ter o padrão europeu na composição de nossa população. A primeira questão que os economistas trazem é se a previdência se sustenta com essa inversão da pirâmide etária, esquecendo que os aposentados de hoje contribuíram ontem. O problema é que parte do recurso arrecadado pelo trabalho que os idosos realizaram não foi aplicado no próprio sistema, e querem nos convencer que a fórmula de cálculo do "rombo previdenciário" é uma conta de armazém, tal qual uma das candidatas à prefeitura de São Paulo externou em recente entrevista. Não, não podemos apenas nos limitar à aritmética do quanto entrou e o quanto sai. O componente tempo aqui é muito important...

Voos efêmeros e coincidentes

O químico Francisco Carlos Nart morreu na queda do voo Gol 1907, que se chocou com um jato Legacy em 29 de setembro de 2006. Ele estava em Manaus trabalhando na análise de novos cursos de pós-graduação, e, segundo colegas que participavam da avaliação com ele, acabara a análise de projetos mais cedo e resolveu antecipar sua volta a São Paulo para retomar suas atividades de pesquisa na Ufscar. Foi uma das 154 pessoas mortas naquela tragédia. Dias depois, eu recebi um projeto da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para analisar e os olhos tremeram ao ler como responsável pelo departamento o nome do Chico Nart, como era conhecido. Feito uma cápsula do tempo, tratei de olhar aquele material, demorando-me na folha com sua assinatura. Eram tempos em que o papel impresso imperava, a documentação em arquivos pdf estava na iminência de acontecer, mas demoraria alguns anos para ser quase exclusiva. Tocando o papel com o relevo da assinatura, senti que a sensação da efem...