Postagens

Memórias e esquecimentos

Uma reunião para definir a melhor forma de lidar com arquivos públicos levou à discussão sobre memórias apagadas. Ainda que estudando nosso passado, há os que o reneguem e não querem entender a necessidade dessa compreensão para não repetir ou evitar os mesmos erros; nem tudo o que vivenciamos possui uma memória confiável. Na forma documental muitos papéis se perdem e a historiadora Eliane Morelli, naquela reunião, atentou para o fato de que, modernamente, outro desafio surge: o de não haver mais arquivos de e-mails trocados, aqueles que formam a memória de tratativas, discussões para a elaboração de projetos, quer seja uma decisão empresarial, quer seja de uma lei ou ação governamental. Bem, há os que usam a ferramenta para fins ilícitos e até se esquecem de apagar em definitivo das lixeiras virtuais... O uso das redes sociais também possui o dilema da dificuldade para resgatar tudo o que foi ali postado, uma vez que material antigo precisa ser apagado para dar lugar ao novo e se não ...

Quentes e menosprezadas

Por estes dias, a única manifestação inspiradora são estes parágrafos. Por menos ideias que surjam, dois parágrafos não acomodam o todo a ser dito. Os da semana passada, concordo, foram uma reverberação de outras ideias, preteridas por órgãos de imprensa, transpostos de cartas a parágrafos. Funcionou. Ideias que nem sempre são aceitas, o que é corriqueiro no devido debate, mas que também sequer são ouvidas ou consideradas. São desprezadas. No calor de uma discussão, o editor pode não publicar tudo o que a ele chega, humano e defeituoso que também é. Por outro lado, um artigo enviado para um site que quase tudo publica foi repetido em jornal de Sergipe, tratando da crítica que é feita a servidores públicos, mesclando com as recentes mudanças havidas na política de cotas:  https://jornaldodiase.com.br/servidor-publico-e-a-politica-de-cotas/ . Muitos outros escritores estão no mundo virtual e passei a acompanhar este blog de Hilda Milk com bons textos para leitura:  https://...

O uso de celebridades

As celebridades são usadas - e, às vezes, abusadas - para a venda de produtos. Isso é patente, uma relação ganha-ganha, pois a celebridade pode ter boletos além dos suportados pela função principal que desempenham. Tomo alguns exemplos, sem pensar em quantas curtidas tiveram nas redes (anti)sociais, apenas um exercício de memória. Continuam as discussões em relação ao "meme" que viralizou nessas redes e em outros recantos cibernéticos no momento, refletindo o deepfake da Elis Regina. Reconstituições são frequentes em peças publicitárias. Com o avanço da tecnologia, mais e mais pseudorrealidade é trazida às imagens. Subverter posições políticas e a própria história também é típico de quem quer vender, pois o lucro fica acima de escrúpulos. São muitos os exemplos, desde um Vinícius de Moraes tomando cerveja ao piano (quem se lembra?) até uma Elis Regina dirigindo uma Kombi. Mas ninguém pensou em usar inteligência artificial para reconstruir meu pai colocando calhas pela cidade....

Infância cíclica

Filmes que dão medo ou que nos fazem pensar parecem ser os melhores. Há também os de ficção científica produzidos acima da barreira do pastelão de efeitos especiais. Cinema de qualidade não é entretenimento, dizem os especialistas, mas eu sou um mero espectador, então entretenho-me em assisti-los. A proibição por faixa etária que vem junto ao filme é o maior chamariz para despertar curiosidade do que estão escondendo dos mais jovens. Tirando filmes pornográficos que estão em outra esfera de "curiosidade pelo conhecimento", filmes mais sérios são frustrantes quando a expectativa por vê-los devido às proibições é maior do que a realidade depois de vistos. A pergunta que resta é por que uma criança não pôde ver isso agora, mas um ou dois anos depois será permitido ao jovem dali resultante? Algumas passagens com linguagem inapropriada ou cenas de erotismo, talvez nudez, justificam a proibição. Mas não parece nada diferente daquilo com que boa parte dos jovens tem contato no mundo...

Correspondências

O preparo para a postagem começou no Dia do Selo, início de agosto, que motivou uma tentativa de trova que não deu muito certo. Fiquei, então, com o poema na forma de versos livres, publicados no Facebook: Agosto inicia pelo Dia do Selo, / que há muito tempo não lhe dão valor, / mas gostaria ainda de vê-lo / estampando uma carta de amor . Devo fazer a ressalva ao adjetivo livre, pois um verso será sempre prisioneiro da angústia do poeta, fingidor ou não. O poeta fingidor é o mais honesto dos confidentes. Mas em mundo eivado de falsidades, constato que algumas mentiras correspondem aos fatos, outras datas correspondem à vida. Descubro que o Jornal da Cidade Bauru tem a mesma idade minha e pude tecer umas linhas em agradecimento ao espaço que lá me é concedido ( https://sampi.net.br/bauru/noticias/2778106/articulistas/2023/08/o-oasis-do-jornal-da-cidade ). E o site Chumbo Gordo, da Marli Gonçalves, abriu espaço para minha primeira publicação: https://www.chumbogordo.com.br/432016-guerra-...

Parentes na leitura

Mudaram o X da questão, mas a resposta difusa continua a mesma na rede (anti)social que o abriga. Em outra rede, os amigos do Facebook são limitados a 5 mil. Não que ajude muito na seleção para alguma conversa animada, que não seja de ódio, propaganda ou limitada a grunhidos cibernéticos na forma de carinhas e joinhas. Há os que criam outros perfis para aumentar sua gama de contatos. Os amigos reais são medidos à base de centésimos daquele valor. Ou milésimos. Em outros espaços mais pragmáticos, como o LinkedIn, os contatos são assim chamados, nada de amigos e pouco de vida pessoal para ostentar. Todos posam com os braços cruzados à frente do corpo, trajando blazers e terninhos. A dimensão da amizade virtual me leva a refletir que tenho mais primos do que amigos. Pai e mãe, cada um, tiveram uma dezena de irmãos, todos convertidos em tios, todos casados e todos com prole média de três filhos para cada um. Ou seja, tenho cerca de 60 primos! Não vou considerar aqui os que foram surgindo n...

Resgate

Três parágrafos são uma medida imprecisa de conteúdos, dependentes da quantidade de linhas e, em última análise, da ênfase dada aos assuntos abordados. Alguns fluem bem, as palavras quase que desaparecem para dar lugar a uma mensagem. Beira a espiritualidade, não fosse ela inexistente. Resta uma ideia final quase sem a necessidade de um meio condutor. Outros são mais travados e o melhor é abreviá-los. Insistir, nesses casos, leva a descontentamento do escrevinhador e dos leitores. Mas é necessário algum resgate de forma e conteúdo para que a tríade não perca sua identidade. Nos últimos anos, apenas em momento pesado de luto a postagem não foi publicada, o que não quer dizer que as que saem não carreguem pesares e lágrimas. Esta de hoje nem tanto. O homem chegou à Lua há 54 anos, em 20 de julho de 1969, dois anos e 45 dias depois de meu nascimento. Um argentino, Enrique Ernesto Febbraro, propôs que se comemorasse nesta data o Dia da Amizade ou Dia do Amigo e assim ficou para algumas par...

Dias idos

Foi o dia da ciência e do pesquisador científico em 8 de julho, data da fundação da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, uma comemoração com viés de volta à civilidade. O aniversário de Campinas e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico da mesma cidade é neste 14 de julho, que não é feriado; Marcel Proust nasceu num 10 de julho, Guilherme de Almeida morreu num 11 de julho, Carlos Gomes nasceu nesse mesmo dia, 11, em outro século. O dia "mundial" do rock é comemorado somente no Brasil em 13 de julho e minha comadre aniversariou no 12. Novamente, o volume de efemérides é muito grande em relação ao número de dias de um ano. As coincidências são inevitáveis pela lógica probabilística. E o tempo, esse que uns buscam e poucos encontram, segue inexorável e vence todos os prazos e derrota os compromissos. Os dias vão pelos desvãos da existência. O elogiado historiador abdica da gramática e não faz distinção entre o uso do verbo haver, para representar o passado,...

Sonhos reais e vida fictícia

Ao acordar, tenho a sensação de que algo pesa em minha cabeça. A lembrança é a do sonho em que fui expulso de minha sala de trabalho, com uma ponta de crueldade ao deixarem alguns documentos sobre uma mesa para lembrar que realmente era meu o espaço e que foi ocupado por outros. Jogado fora? Colocado em outro lugar? A matéria de meu passado empoeirado ficou sem destino certo, pois acordei. Transformar poeira do passado em concreto do futuro segue como constante objetivo, de olhos fechados ou abertos. O momento de forte interação do subconsciente com o consciente é objeto de estudos, alguns sérios, outros beirando a pseudociência. Gostaria de entender-me melhor para saber o que esses neurônios sonolentos dizem, se é que há alguma mensagem nos filmes vivenciados todas as noites. Quando espantosos, são registrados no caderno de capa vermelha, que já foi preto, amarelo, multicor. Ao descrever o sonho, creio que um dia posso sabê-lo melhor. É a sina de todo pretenso escritor: seus sonhos vi...

Sabidos anônimos

Os comentários para este blog são liberados, sem moderação, sem censura, mas para aparecer o nome do autor precisa haver um registro no gmail. A maioria não o faz e aparece como anônimo para mim e para os demais leitores. Alguns assinam o texto junto ao comentário e fico sabendo quem é o gentil leitor. Digo gentil porque apenas uma única vez recebi aqui impropérios, aos quais não cabia interlocução. Tratava-se de um sabido anônimo (ou seria sabino anódico?), que não teve a mesma coragem fora dos ditames do espaço cibernético. Inteligência natural movida por neurônios biológicos que comandaram nervos e músculos para digitar o infame comentário. Cito apenas como exemplo, creio que até já esqueci o conteúdo. Aos anônimos que subscrevem cartas, comentários e afins, agradeço e teço respostas quando pertinente. Juntam-se àqueles anônimos de outrora que figuravam em jornais e revistas impressos, a completar ou corrigir as notícias dadas e para as quais o editor resolveu omitir a autoria. Já t...

Inverno quente

Está bem frio. O inverno começa oficialmente hoje e a previsão é que não será tão frio e seco em função do El Niño. A meteorologia evoluiu muito, mas as mudanças climáticas provocadas por nós dão um nó nos programas computacionais que ela utiliza. As previsões, confirmadas ou não, alimentam novos softwares para seu aprimoramento. Acaba por ser uma boa previsora do passado, tal como a economia, que de ciência tem muito pouco. Na verdade, hoje é o dia em que chegamos ao solstício, correspondente aqui no lado meridional do planeta ao dia mais curto do ano. O sol chega ao máximo de descolamento de nascimento, que está deslocado para o norte, e começa a nascer mais ao sul, movimento lento nos céus e horizontes, mas perceptível e registrado há milênios pelas civilizações que nos precederam. A astronomia é, talvez, a mais antiga das ciências de base empírica. Em noite limpa e clara, vejo um avião passando pelo Cruzeiro do Sul, quase no zênite da abóbada celeste. Aproveitei para refletir que a...

Engolindo letras e sapos

Por esses dias, centenárias referências se apresentam. Quanta coisa escreveu e matutou Ruth Guimarães, nascida no mesmo dia em que Santo Antônio é celebrado. Os filhos mantêm sua memória viva com eventos em sua cidade, Cachoeira Paulista. Acompanho, de longe, os louvores à madrinha de nossa Academia de Letras de Lorena (ALL). Professor Nelson Pesciotta, outro centenário já falecido, será homenageado na nova edição da coletânea da ALL a ser lançada em agosto, no aniversário. O compromisso de publicar todo ano está sendo levado a cabo ininterruptamente. Resgatei dos arquivos públicos o fichamento do professor quando da ditadura cívico-militar, rotulado de comunista, como todos os que ousam clamar por um mundo melhor. Em minha época estudantil sabíamos do paradoxo da expressão inteligência militar e hoje parece que a falta de sinapses se estendeu para vários cantos (e antros) povoados por alguns que avocam sapiência. Só se mudaram a etimologia para algo raso, com origem no sapo, o batráqu...

Ambiente para prosa

É, o aniversário foi na correria, sem registro fotográfico, e a mensagem que deixei nas redes sociais em agradecimento era para lembrar o Dia Mundial do Meio Ambiente. Completar mais uma volta ao redor do Sol dá-me mais um ano de juventude, assim quero crer, mas o meio em que vivemos clama por sobrevivência. Pouco a comemorar, portanto, mas não podemos nos esquecer de que há um dia, uma semana, um mês em especial para refletir sobre ações que possam e devam ser feitas, no âmbito pessoal e na vida social, para a preservação de nosso espaço vital, do mundo verde e azul que conhecemos. Publiquei algumas reflexões nos jornais do interior paulista em que tenho espaço (Correio Popular, Jornal Cidade de Rio Claro e Diário do Rio Claro) e, como sempre, os textos foram reproduzidos em minha conta no Facebook ( https://www.facebook.com/adilson.goncalves.9847/ ). O ambiente somos nós, atados e desatados. Fiquei de prosa com um consumidor na fila do supermercado. Buscávamos a promoção do queijo fa...

Prazo esgotando

Um grupo de policiais adentra a residência por um corredor estreito. Em meio a confusão anterior, de pessoas e conversas, num átimo não entendo o que está acontecendo e, descobrindo que a prisão é iminente, ponho-me em pânico. A tremedeira no corpo inteiro e quase desfalecimento recostado à parede somente são interrompidos quando acordo. Sonhos de cobrança têm sido constantes e não sei se o tal do Freud explica, porque até ele já foi abandonado por Lacans mais modernos. Os adeptos de um e de outro travarão debate infinito e terei pouco tempo para ouvir e entender as partes. Contento-me com resumos. Responderão a pressão e opressão pela necessidade de envio de documentos e afins em dias certos? Fim de mês, dirá o matuto sabedor dos prazos que coincidem sempre 24 horas antes do início de um novo mês. A originalidade dos que cobram míngua ao estabelecer o derradeiro dia como o da noite sem dormir. Nem é do imposto de renda que falo, mas de todo o resto que invade a vida acadêmica. Até...

Ladra

Com ciúmes do gato, o cão ladra. A paródia ao frio da semana passada ( https://adilson3paragrafos.blogspot.com/2023/05/conforto-ao-frio.html ) perde sentido para o canino, não aquele que dói por descuido dentário, mas o que late. Canis latrat , no bom latim que o tradutor digital permite, com o devido crédito à inteligência artificial que parece nos querer dominar. Garanto que o texto que aqui segue ainda não é fruto da facilidade computacional de gerar palavras em sequência que possua algum sentido. Digo ainda porque vejo que muitos colegas de trabalho estão se rendendo à ferramenta para elaborar documentos administrativos e até prévias de relatórios e planos de aula. Fantástico se não fosse tenebroso. Operadores do direito se adiantam nessa seara, farejadores que são, tanto em continuar o plágio de seus extensos e verborrágicos pareceres, quanto na apresentação de uma nova área de litígio: a da autoria do material feito pela inteligência artificial. Bem, plágio é plágio e o computado...

Conforto ao frio

Um gato no meio das pernas à noite é sinal que a temperatura baixou. A troca de calor esquenta ao menos parte do corpo, mas o felino se acomoda de um jeito que fica difícil se mexer. Os repuxos da perna ruim são inevitáveis, quando não são as duas que resolvem deixar claro que os joelhos doem. Em algum momento da madrugada, com tanta movimentação, o gato desiste e vai atrás de outro humano acolhedor. E que seja mais estático. Dormir, sim, esquentar-se também, mas sem solavancos, é o pedido por trás da felinicidade que o animal exala. Quem tem bichanos por perto sabe de sua natureza peculiar e necessária para preencher vazios em espaços que são seus. Ali estamos como coadjuvantes. Não por menos um gato foi uma das imagens que ilustraram a capa da coletânea da Unesp com crônicas selecionadas na e sobre a pandemia. Pelas ruas, no entanto, a urbanidade perde protagonismo, é excludente e os que ali padecem do frio despertam algum calor humano, insuficiente. Gosto do frio, não apenas porque ...

Faz falta

Meio milhão de mortos. Esse é o título do artigo no Jornal Cidade de Rio Claro desta semana, uma avaliação de quantas pessoas morreram pela covid-19 além do estimado pelo porcentual de população que temos em relação ao resto do mundo. Muita gente morta além da crise pandêmica. Morreram por negligência, descaso, negacionismo. Fazem falta. Aquele jornal do interior paulista é um dos remanescentes espaços impressos para divulgar opinião e notícias locais. A manifestação opinativa que vai em outros sites, em movimento cíclico, sempre divulgo aqui. Descubro que todos que pensam, põem o pensamento em ciclos de vai e vem; de reflexões eles costumam rotular. Talvez justifique-me assim, tentando não ser repetitivo, mas não perdendo a essência dos argumentos. Leio o que está escrito para saber o que foi dito e também o que foi modificado de um pensamento inicial, incluindo meus pensamentos. Mas o que é crime continua sendo crime, estando ou não o criminoso no poder. Eis mais uma dessas reflexões...

Poesia ainda que tardia

A semana é do trabalhador e usemos para falar de outras coisas, outras palavras. A rima óbvia é amor, mas fiquemos com a poesia, dissonante na terminação, completa no significado. No último sábado do mês, os poetas se encontraram na Biblioteca Municipal "Prof. Ernesto Manuel Zink" em Campinas e realizaram uma manhã muito agradável, chamada de Roda de Poesia. Foi minha primeira vez. Chico Buarque era o homenageado por questões havidas naquela semana. Cantoria com seus poemas transformados em música, leitura de textos de teatro e até meu "Raízes do Brasil", do livro "O eu e o outro" (de 2016), foi lido pelo Batata, um dos que promovem a roda e a fazer girar, livre e docemente. Levei alguns versos de Paulo Leminski para ilustrar o que foi minha formação e inspiração poética e daquilo que eu gosto em poemas: a síntese, em poucos versos tudo dizer. Não que admire e pratique os sonetos e estrofes mais detalhadas, apenas revelo um das admirações maiores. Relembre...

Um imenso Portugal

O carro faz barulho, suspensão consertada, o ruído continua. Não é nada grave, diz o mecânico. Nada descobriu nas partes íntimas do veículo que pudessem causar algum acidente. Mas o barulho continua. E vem da direita, como sói ser. A semana teve forte sotaque português e, obviamente, não quero relacionar com algum ruído, mas, sim, com o ruído de comunicação que possa haver quando se conduz o pensamento por expressões distintas. Ainda mais com nossa língua repleta de regionalismos, construções e sotaques. Certa vez, jovem universitário, cheguei a praia quase deserta em Florianópolis e havia um outro semelhante ali acampado. Era habitante local e assim que abri a boca na primeira interlocução já inferiu que eu era paulista, pronunciando o s feito um x. Rimos. O paulistano, talvez até mais que o paulista, insiste em dizer que são os outros que têm sotaque, não ele. Resultado de diferentes formas do ar passar pelas cordas vocais e restante do aparelho fonador. Talvez seja isso, o ar está r...

Jatos históricos

A semana começa com dia do livro infantil, passa pelo dos povos originários, segue com combate ao fascismo, chega ao de Tiradentes para terminar com o do "descobrimento" do Brasil. É isso mesmo? A ordem dos fatores altera, e muito, o produto histórico que é o que vivemos. No meio da festa é difícil identificar de onde vem o som, quantos estão dançando ou bebendo ou conversando ou mesmo os que estão alheios aos acontecimentos. Sem contar que tem muita gente ali trabalhando e não se divertindo. Assim aprendi a entender por que a contemporaneidade de vivenciar fatos históricos não leva todos os presentes a registrarem a mesma impressão. Por estar no foco dos acontecimentos, há a necessidade do distanciamento temporal para saber o que realmente aconteceu e, ainda mais, sob diversos pontos de vista. O incauto dirá que a verdade dele é a verdadeira porque os olhos que a terra há de comer assim viram. Não há traidor maior que nossos próprios olhos e a memória seletiva que registra i...