Postagens

Secas juninas

O tempo é seco por natureza da época e a tudo põem fogo. O ar que deveria ser mais límpido pela ausência de gotículas de água torna-se uma cinzenta ou amarronzada nuvem pairando no horizonte. Questiono se a prática das queimadas onipresentes é somente questão cultural, de purificação. Idosos e crianças são os mais susceptíveis às doenças respiratórias e o que vemos - e acompanhamos - nos pronto-socorros. Ainda que a colheita da cana-de-açúcar já não seja mais feita no estado de São Paulo com a queimada concomitante que se fazia da palhada, os fogos em áreas de pasto e no pouco que resta de bosques e grama são visíveis e sensíveis diuturnamente. Se ainda fosse chover no seco, estas lamúrias serviriam para algo. Mas resta apenas a angústia da espera pela passagem deste tempo, seco tempo. Seca também a vontade, secam os sentimentos. Alguma poesia se manifesta, insuficiente. O fim de semana será de minutos de Euclydes da Cunha para a Academia Campineira de Letras e Artes, após a palestra...

Cultura da transformação escrita

Junho retardou a reunião cultural mensal da Academia Campinense de Letras, e na segunda-feira pudemos nos deliciar com três olhares femininos sobre Monteiro Lobato e sua obra. Eliane Morelli Abrahão discorreu sobre a figura de Maria Pureza da Natividade de Souza e Castro, esposa de Monteiro Lobato (a Purezinha), que o auxiliou na correção e revisão de muitos textos e se dedicava à culinária. Legou-nos um livro de receitas, colhidas alhures sempre com a indicação da fonte quando conhecida, e examinado à amiúde pela Eliane, como sói ser para essa pesquisadora da história da alimentação. Já Cecília Prada focou na figura enérgica do escritor, levado da breca, segundo ela, ou seja, uma figura forte, contundente, que o levou a encarar desafios e enfrentar governos, especialmente no estabelecimento de políticas públicas, como a exploração do petróleo. Por fim, a também acadêmica Regina Márcia Tavares resgatou a importância do lúdico, da literatura infantil que é a marca maior do criador do Sí...

Procedimentos

Os métodos científicos, por mais estabelecidos que sejam, são susceptíveis a reavaliações e contestações. #IniCiencias . Mas busca-se sempre a maior proximidade com a isenção, mesmo sabendo que ela não existe. O jornalista já parte do pressuposto que a boa notícia é a totalmente isenta, quando sabe muito bem que, em sua área de atuação, isso é mais próximo da ficção. A própria decisão sobre o que é notícia e o que se deve e o que não se deve publicar é o primeiro elemento da 'tomada de lado' que o jornalismo possui. O conteúdo da matéria dirá bastante sobre o jornalista, às vezes mais até do que o objeto da notícia. A diplomacia diz que devemos esconder as questões e continuar crendo que jornalistas e cientistas são isentos social e politicamente. Sou cientista e tenho me enveredado pelo jornalismo científico e fico à mercê do julgamento, aproveitando para divulgar a matéria mais recente publicada na revista eletrônica ComCiência ( http://www.comciencia.br/investimento-em-cienc...

Divulgação de ciência e cultura

Aconteceu nesta semana a sexta edição do Encontro de Divulgação de Ciência e Cultura (EDICC), na Unicamp, organizado por alunos de pós-graduação. Assim, o Dia Mundial do Meio Ambiente e, por consequência, meu aniversário foram comemorados com ricas apresentações e profundas discussões. Dois dias para pensar o que é o fazer ciência e cultura e como elas devem ser divulgadas além dos muros universitários e acadêmicos. O tema deste ano foram os afetos políticos em seus múltiplos entendimentos e várias abordagens. Em tempos de ódio declarado e política oficial de extermínio do conhecimento, foi um respiro revigorante deixar o laboratório um pouco de lado e participar das sessões e assistir às palestras. Um resumo sobre o evento não será feito aqui, não é o objetivo. Apenas algumas afetações serão compartilhadas. De imediato, ficaram as palavras e expressões que foram utilizadas e que carregam o sentido dos afetos, que para muitos podem ter sido facilmente aprendidas, mas que, para mim, a...

Cultura no fim de maio

A história de Campinas por meio de cartões postais. Esse foi o tema da palestra do Prof. Luís Eduardo Salvucci Rodrigues, promovida pelo Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, realizada no CIS Guanabara (Centro Cultural da Unicamp), no último sábado. Uma manhã muito agradável que, além da cultura, nos trouxe um paradoxo físico, pois não percebemos o tempo passar. O professor Luís apresentou a coleção que possui e suas motivações profissionais e pessoais para explorar essa forma de documentação histórica, arquitetônica, urbanística e cultural. Uma foto marcante foi a tirada da atual Praça Carlos Gomes em direção à Catedral da Conceição, mostrando, de um lado, a região de - digamos - serviços sexuais da época, e, do outro, o marco católico principal da cidade. Cometi o impropério de afirmar que o contraste das finalidades de uso é superado pelo público que os frequenta, que é basicamente o mesmo! É de 1893 o primeiro postal brasileiro feito com fotografia e no acervo ...

Culto às forças incultas

A extração de dois dentes com os antibióticos tomados me deixaram um pouco zonzo. Talvez seja uma explicação para ver o mundo tão embaçado nestes dias. Eu não estava no Brasil quando Collor chamou a população às ruas para se manifestar em sua defesa, usando as cores verde e amarela. O povo foi, mas vestido de preto e gritando pela saída do presidente comprovadamente corrupto. Na Alemanha, chamaram de guerra das cores; não sei se escutaram o que se dizia aqui. Hoje a situação é muito semelhante e a previsão é que o chamamento oficial para apoiar a retirada de direitos do trabalhador seja um fiasco. Ou talvez não, evidenciando o lado mais sórdido das "pessoas de bens", defendendo um regime que beira o da exceção. Bem escreveu Ranier Bragon na Folha de S. Paulo: forças incultas estão agindo. Emprestei, sem pedir, o título do colunista para compor o daqui. Um jogo de palavras pode ser traçado, usando o culto que possui cultura, com o culto da adoração, o oculto das forças apreg...

Educação para o Brasil

Esta quarta-feira, dia 15 de maio, foi um dia histórico de mobilizações e manifestações por todo o país em defesa da educação. Participei da passeata em Hortolândia, que congregou o Instituto Federal e a Escola Técnica Estadual daquela cidade, além de outras escolas públicas da região. Vesti-me de preto, com adesivo dizendo sim para livros e não para armas. O movimento foi significativo, o que levou o presidente - a partir de evento nos EUA para o qual há dúvidas se se convidou ou se foi convidado - dizer que os alunos são idiotas, inúteis e imbecis. É o reflexo do que pensa um governante que deveria estar defendendo o futuro dos habitantes de seus país, e não extinguindo suas aspirações. A inépcia é orquestrada, pois não demonstrou articulação política nos dias anteriores, permitindo a convocação do ministro da educação para passar vergonha na Câmara dos Deputados no momento em que ocorriam as manifestações, que levaram de 2 milhões a 3 milhões de pessoas às ruas em mais de 200 cidade...

Luto hoje, luto sempre

De preto, de luto pelos cortes de recursos que o Ministério da Educação está fazendo no orçamento dos Institutos Federais e das Universidades Federais. O governo estadual não fica atrás, ao promover uma CPI das Universidades Paulistas. Mentem presidente, ministro e governador, pois é na Universidade Pública que se produz mais de 90% de toda a tecnologia, ciência e conhecimento do país. Não, não é a indústria nacional que o faz, muito menos a universidade privada. Muito pelo contrário, pois o empresário nacional é bom de conversa para defender o chamado liberalismo econômico, mas, quando a situação aperta, recorre imediatamente ao governo para suporte financeiro para seus empreendimentos. As universidades públicas são, portanto, locais em que não se faz balbúrdia, como o inepto ministro alega. Ministro esse que é economista e não sabe a diferença entre milhões e milhares de reais, quando foi anunciar valores para a realização de provas de avaliação educacional. Os cortes estão sendo cha...

Passagens e ultrapassagens

Além dos necessários protestos no Dia do Trabalhador, precisamos de profundas reflexões para entender o que estamos passando e avaliar se alguma solução se apresenta. Não haverá uma resposta pacífica ou única. Devemos arquitetar um rompimento com o ciclo de destruição de nossa memória, ocultações das informações sobre a sociedade e do extermínio das poucas conquistas sociais havidas até aqui. Nossas cartas de protestos, artigos de opinião e alguma discussão na internet - diga-se redes antissociais - ainda continuam sendo publicadas e compartilhadas, apenas como verniz de tranquilidade democrática. O país está se escondendo e se perdendo e já dissemos que um governo sem projeto é pior do que se tivesse um projeto ruim. Imagino que haja algum ser pensante dentre os minguados 35% da população que ainda aprovam os compadres do poder que se instalaram em Brasília. Poderia pedir que se dignificassem e passassem a defender alguma agenda de ações, mas sei que se expor ao ridículo demandaria um...

O avião voa

É leve o voo do avião. Os princípios de força, velocidade, dinâmica e muito conhecimento científico e tecnológico impulsionam o veículo aéreo para realizar sonhos de Ícaro sem fazer cera que derreta. Charles Lindbergh, Bertolt Brecht, Saint-Exupéry e Agatha Christie se unem em uma única história, que envolve o primeiro piloto a atravessar o Oceano Atlântico voando sozinho sem escalas, o sensacional dramaturgo e poeta alemão, o autor de O Pequeno Príncipe e também aviador e a dama do suspense e dos livros de investigação criminal. A história dessas pessoas ou que elas contam se juntam no livro Assassinato no Expresso do Oriente, título às vezes escrito sem a contração preposicional do (mas não sem dó, abusando de trocadilhos de um blogueiro à toa). Não estarão lá citados, aparecendo apenas o nome da autora. Um convite para conhecer biografias, analisar posições políticas, maravilhar-se com a construção de argumentos ficcionais e sonhar com um mundo que pode, sim, ser baseado no conhecim...

Quando as palavras erram

Os dedos correm rápido pelo teclado com vontade de dizer coisas e mais coisas. Seguro-me para não virar uma verborragia desconexa. Já são poucos os leitores - uma centena, segundo o contador do blog -, mas são de qualidade, o que me motiva a escrita. Perguntam-me se não poderia fazer mais postagens por semana. Seguro-me novamente, pois, mesmo não faltando assunto, o tempo para a elaboração de algo aceitável, legível e responsável é longo. A rapidez cobra seu preço: nesta quarta-feira saiu artigo meu no Jornal Cidade de Rio Claro sobre a fotografia do buraco negro de semana passada e fiz alusão ao centenário do eclipse visto em Sobral, que contribuiu para a comprovação da teoria da relatividade de Einstein, dizendo que houve encontro do cientista alemão com os congêneres brasileiros! Na empolgação, errei. Einstein esteve no Brasil somente seis anos depois, em 1925, e visitou o Rio de Janeiro no meio a uma viagem pela América do Sul. O espaço naquele jornal somente será ocupado daqui dua...

Dores e saberes

A vida suburbana, marginal, foi a base das crônicas de Lima Barreto, um século atrás, e é o local de inusitados incidentes, como o fuzilamento com oitenta tiros e a dezena de mortos por enchentes e alagamentos. O chumbo e a água encontram seu espaço, destemidos em suas trajetórias, livres de qualquer regulação lógica, científica ou social. Segurança pública envolve inteligência nas ações de investigação, não presente no plano apresentado pelo super ministro. Urbanização sustentável é matéria de conhecimento de estudiosos e gestores há um bom tempo, mas sua aplicação parece não se coadunar com a apropriação ilegal de recursos públicos. Assim, mataram pessoas, com sujeito da frase indeterminado, cuja cor e nível social, por outro lado, são muito bem definidos e conhecidos. Fiz uma breve apresentação sobre os 150 anos da Tabela Periódica na reunião inaugural da Academia Campineira de Letras e Artes, no último sábado, destacando o trabalho do russo Dmitri Mendeleev que, além de sistemati...

A melhor direção

No trânsito, em um cruzamento sem sinalização, a preferência de passagem é de quem vem pela direita. As ultrapassagens devem ser feitas pela esquerda. Apesar da seta indicadora de mudança de direção ser um item opcional em boa parte dos veículos automotores (especialmente os de Campinas), não há muita dúvida sobre o que sejam direita e esquerda. Nas salas em que se reuniam, a partir do local de assento de grupos políticos que defendiam um tipo ou outro de posicionamento, a eles foi dado o rótulo de esquerda e direita. Ao longo do tempo, as teses de esquerda se aproximaram de conceitos progressistas de maior envolvimento social nas decisões políticas, na busca de oportunidade para todos e no estabelecimento de um Estado que protegesse minorias e garantisse a fala democrática para todos. Bem, a direita evoluiu para tudo o que é contrário a isso: manutenção de privilégios de grupos, sufocamento de vozes minoritárias, noção de livre iniciativa e liberalismo econômico, como se todos nascess...

Educação e aprendizado, sempre

Um dos motivos para a postagem tardia era a expectativa da óbvia demissão do Ministro da Educação, o que não aconteceu. Parece que a fritura com óleo quente foi adaptada para abafadinho sem sal. Após a redemocratização do país, tivemos projetos educacionais de vários impactos e dimensões. Mas sempre tivemos projetos. Pela primeira vez, não há qualquer projeto para a educação brasileira, a não ser o desmonte do que vinha sendo construído até aqui e a inclusão de pautas de costumes - na maioria de importância exclusivamente pessoal - em assuntos que dizem respeito à formação de crianças e jovens. Houve projetos educacionais ruins, outros que alimentavam apenas a excelência e o utilitarismo do ensino e, uns poucos, que trouxeram inclusão na educação pública. Críticas de parte a parte puderam ser formuladas, projetos foram melhorados, outros substituídos e os mais recentes criaram uma prática de resgate de dívidas sociais históricas, com o devido sucesso. O apagão governamental, no entanto...

Ciclos culturais

Carlos de Moraes Júnior era o presidente do Clube dos Escritores Piracicaba. Faleceu dia 13 de março e fiquei sabendo dias depois pelo comunicado de outros membros do Clube e pela notícia que saiu na Gazeta de Piracicaba, jornal no qual ele mantinha uma coluna. O Clube era o Carlos e o Carlos era o Clube. Uma semana antes ele havia enviado um e-mail solicitando a remessa de novos poemas e crônicas para publicar na revista eletrônica mensal, que deixou de ter a versão impressa há alguns anos. Ia responder quando soube da triste notícia. Comuniquei aos demais membros do Clube - são centenas espalhados por todo o Brasil - sobre a importância de manter as atividades, com a outorga de troféus e a publicação da revista. Há um grupo local que está se organizando para isso, esperando a superação do luto, mas há os que entenderam a proposta como egoísmo ou insensibilidade. Mas manter o Clube funcionando é a melhor forma de homenagearmos o Carlos e seu legado como poeta e defensor da cultura. ...

Mortes em círculos

Um ano completo. Morremos Marielles e Andersons a cada descaso, a cada crime, a cada manifestação oficial a favor da violência. Sim, a lógica governamental é que o Estado não tem responsabilidade pela segurança que deve ser feita pelo indivíduo. Armemo-nos uns aos outros. O belo vira bélico e consolidamos a ignorância da vivência segregada. Prenderam dois suspeitos, mas tudo indica que houve mandante. Talvez mais um ano para identificá-lo. Mas serão eleições novamente e uma nova lógica aparecerá para não contaminar o processo. No meio tempo, dois jovens promovem a execução de estudantes e funcionários de uma escola em Suzano, apenas para que em nossos corpos não diminuam a ansiedade e a angústia da existência. Armas de fogo foram usadas e o senador pelo estado de São Paulo Sérgio Olímpio Gomes, conhecido pela alcunha de Major Olímpio, solta um disparate ao recomendar que professores trabalhem armados! Pergunto se é ausência do raciocínio ou pura monstruosidade para defender seus intere...

Carinho e cuidados com mensagens e palavras

Cuido do que escrevo para não atentar contra as leis, respeitando opiniões diversas e, o mais importante, para deixar claro que o escrito reflete o que penso. Quanto mais estudamos e mais contato temos com o fluxo do conhecimento, mais responsáveis nos tornamos pelo que divulgamos. Já fui professor universitário na renomada USP, aluno na importantíssima UNICAMP e, hoje, sou pesquisador na valorosa UNESP. Atribuo-me uma responsabilidade talvez indevida, mas impossível de ser ignorada. Os exemplos deveriam vir de quem tem projeção ou poder e isso não está acontecendo, segundo tudo o que lemos e assistimos. O baixo nível do que é dito de forma oficial apenas confirma a perda da esperança em um país melhor. Continuo cuidando daquilo que escrevo, não vou me contaminar com o retrocesso pornográfico. E, mesmo assim, a crítica me coloca como incapaz de comunicar. Hoje saiu finalmente o artigo mais completo sobre o caminho que percorri para descobrir crônicas inéditas de Lima Barreto. A ediçã...

Fantasias

Bons acontecimentos culturais não minimizam outras angústias. Amanhã começa o mandato da nova diretoria da Academia de Letras de Lorena, a qual integro como Diretor Cultural, tendo como presidente a professora Neide Arruda de Oliveira. Desde janeiro deste ano sou vice-presidente da Academia Campineira de Letras e Artes, presidida pelo Sérgio Caponi que cedeu sua residência no último fim de semana para oficializar a posse ao sabor de um lanche coletivo. Essas associações têm por princípio a diversidade cultural, não podendo se ater a princípios políticos, religiosos, preconceituosos e outros que, mesmo não sendo criminosos, implicariam em exclusão. Tentamos assim fazer, apesar da tentação pelo fácil e leviano ser grande. O tamanho das cidades não implica direta ou necessariamente em maior importância: há dificuldades em uma e em outra para compor o quadro de Acadêmicos e fazer com que todos compareçam às reuniões e realizem suas atividades culturais. A publicação ou produção artística é...

Justiça real e ficção no cinema

O ministro Celso de Mello proferiu um voto histórico ao equiparar os crimes de homofobia e transfobia aos de racismo. Apesar do desnecessário detalhamento de bases jurídicas e históricas, bem como das comparações entre diferentes elementos do direito brasileiro e internacional, a extensa manifestação do decano do STF traz um pouco de luz em meio a tantos retrocessos pelos quais vivemos. Um Congresso Nacional extremamente conservador, mais retrógrado ainda que o anterior, passa a ser cobrado a legislar sobre o tema, caso o voto do relator seja seguido pela maioria dos demais ministros da Suprema Corte. Retardei um pouco esta publicação para ter ao menos a conclusão dessa avaliação preliminar. Houve elogios por parte de ao menos dois outros magistrados, o que pode ser uma indicação de uma corrente favorável para estabelecer essa jurisprudência. Diminuiriam os crimes? Creio que não, uma vez que temos estabelecidas as culturas da violência junto com a da impunidade em nosso país. Mas traz ...

Vida literal, morte natural

A morte é natural, mas não é natural a forma com que lidamos com a morte. Ela refoge a qualquer abordagem lógica, abrindo espaço para lágrimas, no plano individual, e revoltas, no âmbito coletivo. Desde outubro do ano passado estamos passando por intensas tragédias e ações criminosas que têm resultado em mortes de pessoas e de ideais. Provocamos as mortes sociais por uma maioria constituída e construída na mentira e também as mortes pelos crimes ambientais devido à escolha de um combalido modelo econômico. A queda da aeronave que levou à morte o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci foi tratada como fatalidade. Pode ser, mas fica igualmente enquadrada dentro da inabilidade de lidarmos com a morte. Matamos dezenas em Brumadinho e outros tantos nas enchentes, incêndios e tiroteios no Rio de Janeiro. Violência não é exclusividade de um estado ou cidade, a citação é apenas em função do exemplo - triste exemplo - mais recente. São reflexões que não exigem embasamento ci...