Observações

A motorista do Uber reclamou dos buracos de meu bairro. Uma região com altíssimo valor de IPTU, mas desprezada pela administração municipal. Dizem que é devido ao esclarecimento político dos moradores, que não compactuam com favoritismos ou fisiologismo dos mandatários e, não por menos, a região carrega o adjetivo universitária em seu nome. Eu duvido um pouco, ainda que nas últimas eleições os vencedores das urnas daqui se distinguiram dos que foram eleitos no município. A motorista foi categórica ao dizer que precisamos de um vereador, que brigará por recursos para melhorar a condição urbana do bairro. Afinal das contas, essa é a única utilidade do vereador, segundo a autônoma. Talvez por estarmos habituados ao favoritismo político, normalizando-o, esquecemos que a sociedade em harmonia é muito mais do que isso. Os recursos públicos deveriam ser aplicados em função do interesse coletivo e melhoria da urbanidade para todos, e não para os grupos que consigam impor sua influência por meio do voto e do poder econômico. Mesmo supostos dirigentes esclarecidos não buscam o poder público porque o associam com o toma lá, dá cá. Equívoco absurdo.

O comportamento alheio observado e registrado é invasão da privacidade. Talvez, pela omissão das autorias, os advogados não vão bater à minha porta. A ociosidade diária pelo tempo gasto no transporte e nas esperas deveria ser usada de forma produtiva e criativa. O ócio criativo de Domenico de Masi, falecido o ano passado, tinha uma abordagem distinta, mas usar os tempos aparentemente perdidos com a leitura seria muito proveitoso para adquirir conhecimento e cultura. O uso de telas substituiu qualquer outra leitura de livros ou jornais. Sim, há conteúdo equivalente no formato digital, mas uma observação mais profunda do que mostram os visores de celulares e tablets está muito longe da cultura e próxima do entretenimento passivo e até doentio. O tigrinho continua rugindo e roubando valores, enquanto as fakenews seguem em vídeos de origem duvidosa com propósitos muito explícitos, que é cultivar uma sensação de que tudo está desarranjado e a comunicação oficial é mentirosa, invertendo a questão. Outro dia, um cineasta alertou que seu filme somente ficou pronto depois da retomada de investimentos culturais pelo governo atual e foi aplaudido por aqueles que defendem a obscuridade e criminalidade do governo anterior. Ignorância ou conveniência? Ambos.

Finalizando o feriado da República, que muitos atrelam ao primeiro golpe de estado aqui praticado, segue mais um período de fuga de leitores do blog. Bem, não foi o primeiro, e muitos querem que o último seja o penúltimo. Na véspera, a cidade de Lorena fez mais um aniversário, que por lá não é feriado. Outra terra das palmeiras imperiais. As observações, de pessoas ou acontecimentos, levam a impressões registradas, mas não quer dizer que sejam verdades absolutas. Ingênuo ou leviano é o que supõe ser a testemunha ocular do que viu. Não, não é. O cérebro registra o que é mais fácil, e o mais fácil nem sempre é o real. Ele faz isso não porque seja perverso, mas por sobrevivência. Registrasse tudo em detalhes e de forma perene, entraríamos em colapso. Em investigações criminais, tirando, é claro, a truculência dos detentores da força pública, o testemunho pessoal é apenas um dos elementos, pois são as provas materiais - que carecem de sentimentos ou de julgamentos - que indicarão o que realmente aconteceu.

Comentários

  1. Ótimo texto, amigo. Parabéns!

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  2. O feriado da república deveria ser um bom momento a se reavaliar a situação institucional do nosso país. Estamos todos satisfeitos? Não há buracos no nosso asfalto nacional? (PSViana)

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