Dúvidas acadêmicas

Somos acadêmicos para quê? Por quê? Para quem? Bem, temos a indulgência de termos sido escolhidos e acolhidos por nossos pares após nos inscrevermos a uma vaga, decorrente de falecimento ou de condição médica ou pessoal do acadêmico anterior. Ou seja, ingenuamente podemos alegar que a culpa e a razão de nos tornarmos acadêmicos é deles, como é nossa responsabilidade, a partir de agora, quando passamos a escolher novos imortais. Friso: ingenuamente. Dos próprios acadêmicos são exaradas algumas possíveis definições de nossas funções, não que sejam as mais pertinentes ou atinentes ao que deveria ser uma pessoa nessa condição imortal. Também se limitar ao que rezam estatutos e regimentos seria deveras burocrático. Defender a língua, talvez o único instrumento cultural que nos une como país, é uma boa definição, mas todo cidadão assim o faz, na prática e na existência. Fazer isso com maior conhecimento? Não, pois seriam os linguistas os principais ocupantes de tais cadeiras. Há, portanto, uma aura de indefinição que nos leva a sermos acadêmicos, sabendo que somos, sim, defensores da língua e da cultura do local em que geograficamente nos encontramos. O princípio da incerteza leva-nos à cumplicidade com os que nos escolheram e ficamos sem saber, ao certo, porque aqui estamos. Princípio da incerteza não o quântico de Heinsenberg, que fique bem estabelecido.

Há os que julgam a ocupação de uma cadeira acadêmica como o fim em si, um prêmio a quem é de direito. Discordo. A cadeira é um início. Creio na responsabilidade da honra e do mérito, ou seja, passa-se a ser exemplo, referência, ativista, interlocutor, de forma mais ampla do que se era ao ser um simples pleiteante ao espaço. A academia, sendo literária, de língua portuguesa e sua defesa é que trata, ainda que a variante brasileira tem levado os especialistas a criarem para nós um novo idioma. Cultura continua o invólucro geral, pois a estrutura de um povo é baseada em sua cultura. A variante brasileira do português é outra dúvida que permeia a academia, uma vez que conversar usando essa língua em Lisboa não causa grandes desentendimentos. Em regiões mais interioranas de Portugal, falar como aqui falamos poderá causar algum bloqueio para se obter uma indicação culinária ou de caminho a seguir, mas não é um obstáculo muito diferente do que os falares de outros grupos aqui no Brasil com os quais não temos vivência ou familiaridade. A língua continua a ser um excelente instrumento de defesa, quando não é de ataque. O Dia Mundial da Língua Portuguesa passado a cinco de maio leva a reflexões.

Se a dúvida permanece, publicar e produzir com o nome da academia à qual pertence é condição básica, estatutária e lógica. Estar presente em eventos culturais e literários passa a ser mais importante. As pessoas veem aquela medalha como um símbolo de autoridade e autoridade pressupõe responsabilidade. Tornamo-nos responsáveis pelo que publicamos, pelo que pensamos e pelo que somos, enfim. A imortalidade não tem prazo, mas impõe, repito, responsabilidade a quem uma cadeira ocupa. Dizer impropriedades em uma reunião pública da academia terá o efeito diametralmente oposto à defesa da cultura local. O mundo do acadêmico não pode ser apenas o de sua bolha individual, pois cultura está em todo o território, quer ele admire ou não. Para além do debate da importância das academias, há que se enaltecer os esforços para que elas se mantenham e sobrevivam. Assim, temos de comemorar que a Academia Campinense de Letras completa 70 anos em 17 de maio e será homenageada em uma série de eventos ao longo do mês, com destaque para o concerto da Orquestra Sinfônica de Campinas no dia 23 de maio, às 20 h, sob a regência de Júlio Medaglia, também membro da Academia Paulista de Letras (detalhes aqui: https://www.instagram.com/p/DYNkZu2NGKj/).

Comentários

  1. Parabéns para a academia! Parabéns, Adilson, você honra sua imortalidade. Abraços!

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