Águas clonadas
Na revisão ortográfica, a ferramenta cibernética atrelada ao editor de texto irá dizer que o correto é "águas cloradas", subentendendo que o dedo escorregou do r para o n, pois é da química do cloro e da limpeza que se trata. Tolice. Conhecesse o teclado, o tal robozinho saberia que distam duas fileiras para cima e outras duas para o lado uma letra da outra. No curso de datilografia com a vizinha usando uma Olivetti foi assim que aprendi. O teclado QWERTY (as letras que estão no canto superior esquerdo) se manteve ao longo das décadas, mesmo com o advento de computadores modernos e minúsculos. Os celulares mantiveram tal disposição que é reflexo da facilidade com que as mãos apertam a língua inglesa, digitada ou digital. Brasileiros seguiram o modelo. No caso do título, clonamos a água para tirá-la de seus fluxos naturais, transplantando-a para canos e tubulações que jorrarão o líquido a ser desperdiçado em pias, ralos e chuveiros. O dia mundial da água, no 22 de março passado, já foi mais comemorado. Hoje, a secura e a escassez fizeram diminuirmos as tintas a respeito da efeméride, tintas - da mesma forma que os teclados - virtuais em sua maioria.
Datamos tudo para de nada esquecer. Porém, a fixação de uma posição dos astros celestes para marcar o tempo pode ser funcional, mas é arte questionável. Sem uma agenda, eletrônica ou de papel, não nos lembramos porque não mais olhamos para o céu para ver o tempo. Nem o espaço vemos. O embaçamento moderno de dia e a luminosidade espúria da noite fazem com que o tempo seja aquilo que o relógio diz, não o que dizemos para ele ser. Isso de datar dias artificialmente é tarefa humana, creio que desde que entendemos que o sol, a lua e os planetas se movimentam ao nosso redor de forma cíclica. Não, não sou geocentrista ou coisa que o valha, apenas uma constatação histórica. Primeiro acreditamos no que vemos (o sol girando ao redor da terra) e, depois, encontramos explicações que sejam plausíveis e expliquem ou refutem a crença inicial e o conhecimento adicional que tais observações desencadeiam. Se fizéssemos isso com as legítimas e oficiais crenças que grassam por aí, teríamos um mundo menos teocrático e mais democrático. E antes que perguntem acerca dos prefixos dos vocábulos, demo não é o demônio em oposição ao teos, deus. É apenas o desejo do povo se sobrepor ao do indivíduo.
Das datas programáveis, poderíamos excluir a do próprio nascimento, fruto de um suposto acaso. Quer dizer, com algumas ressalvas, pois há os que marcam data para o parto por entender que o primeiro contato do nascituro com o mundo deva ser por uma intervenção cirúrgica. Desde o nascimento de minhas filhas, o obstetra se preocupava com a nova geração de médicos que não mais sabia auxiliar em partos naturais. O melhor é deixar por conta das doulas, as parteiras assim renomeadas. Mas há mulheres que se dizem modernas e que refutam a ideia de passar pelo parto. Bem, não sou mulher - nem me tornarei uma - e não posso dizer nada além da experiência de espectador, coadjuvante que sou na geração de vida. Sim, pergunto-me por que durante a evolução de nossa espécie e de todas as outras que possuem macho e fêmea, a mulher decidiu que precisava de um parceiro para procriar. Somente o aumento da probabilidade da diversidade explica? A clonagem só é possível por haver óvulos viáveis, já nos ensinava o personagem Augusto Albieri, na novela O Clone, muito bem interpretado por Juca de Oliveira que morreu no fim de semana passado. Tolas especulações, vejo pelo cenho franzido do leitor, iniciadas pela água que nos é vida. Bebamos para não nos desidratarmos, pois nossa vida é aquática, ainda que haja os que não saibam nadar. Geminianos, com nascimento naquelas quatro semanas entre maio e junho, são do ar, não da água.
Os taurinos são da terra e, talvez por isto, o contato com água seja tão necessário. Não só para hidratar, mas para refrescar-se ou "lavar a alma" que, de vez em quando, fica atolada com tanta imundície que tem por aí. Sigamos digitando e, diferentemente da época do curso de datilografia, sem tanta pressa e sem tanta precisão, pois hoje podemos apagar com "delete" o que se escreveu errado. Viva a água e viva o teclado da atualidade.
ResponderExcluirImpossível "franzir o cenho" para o que está longe de ser "tolas especulações" rsrs Você, caro cientista, escritor, poeta/trovador, etc e tal rsrs consegue reunir tantas ideias nestes três parágrafos que, às vezes, até dá um nó em meu cérebro! Amei! Que nunca nos falte nossa principal fontevde vida
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